HOTEL RAMONES
(Publicado originalmente na Antologia, Slashers. Volume 2- Anos 80, pela Editora Darkbooks. Organizador da antologia: Thiago Guimarães. 2021)
Talvez fosse um pouco tarde para uma garota de apenas dezessete anos estar perambulando pelas ruas sujas daquela grande cidade. Zanzava por aí sem pudor algum, sem medo, à procura de diversão, ou por assim dizer.
Mary Ann era uma típica garota de sua época. Adorava David Bowie, sucesso em todos os cantos e se identificava com a nova moda de jeans rasgado e fortes maquiagens que estava surgindo. Creio que, para ela, diversão seria algo como se drogar com algum musico ou artistas que viviam na esquina da rua 53 com a 03. La os ficavam, até altas da noite esperando dar uma da manhã. Assim o espetáculo que acontecia na casa noturna logo a frente terminava, liberando a entrada para que pudessem entrar.
Não era um bar típico deles. Eles adotaram aquele estabelecimento pois, tudo era novo e desconcertante naqueles sórdidos tempos.
Mary Ann adorava ir pra lá.
Conhecera um rapaz loiro, de jaquetas de couro e jeans rasgados nos joelhos. Cabelos escuros e curtos, com sua franja cortada como se estivesse colocado uma régua em sua testa. Seu nome era Dee. Um garotão que se amarrava em bandas como New York Dolls, Stooges, Mc5 e todo aquele amontoado de bandas que rolava em seus sistemas de som portáteis.
Realmente era uma época mágica cheio de revoltas. Em uma cidade empoeirada pelos restos de comidas transbordando e latões ateado fogo para aquecer moradores de rua. Com um cheiro de sujeira, se é que me entende.
Mesmo com todos esses percalços, ainda sim existia brilho naquilo tudo.
Dee se encaixava exatamente nesse cenário. Era perfeitamente introduzido como se fosse a peça chave para que tudo funcionasse como deveria. Bueiros imundos, ratos, baratas pelas calcadas, mendigos em volta da fogueira urbana e... Dee.
Mary Ann o conhecera em um show em que sua banda se apresentou embaixo de um viaduto poucas quadras dali. Era perfeito. Ela se apaixonou por todos os seus defeitos, que naquele meio ambiente se transformava em qualidades exageradas de auto confiança e um certo ar de bravura em sua face com queixo cerrado e cara de mal.
Ela chegou na esquina e avistou Dee encostado num poste, fumando e bebendo. Conversando com seu melhor amigo, Danny. Uma drag queen barra pesada que também vendia drogas para Dee. Dee avistou Mary chegando e cochichou algo com Danny.
Mary Ann se aproximou, e com um belo sorriso beijou Dee, que respondeu aos seus lábios molhados.
- Danny tem uma droga legal pra nós. - disse Dee a Mary, sem ao menos um olá antes.
Danny sorriu com sua grande boca esmaltada de um batom vermelho muito chamativo.
- Oi pra você também Dee. E pra você também Danny. - Disse Mary.
Danny retribuiu o olá gentilmente como que sua parte feminina entendesse muito bem a indagação da moça.
- E aí? Vamos alugar um quarto no Hotel Ramones? - Dee.
- Meu deus, ele fica num bairro muito barra pesada. – disse Ann.
Danny a encara e olha em toda a sua volta e diz:
- Mais podre e pesado que isso meu bem, não existe. – disse caindo numa gargalhada que misturava sua tentativa de voz doce feminina, deixando escapar sua verdadeira voz grave e rouca pelos abusos de drogas, cigarros e álcool.
Com um sorriso irônico, Mary concordou.
Custaram a pegar um taxi pois, nenhum motorista de bom senso pararia por ali para fazer uma viagem com alguém que frequentava essa esquina. Resolveram ir para a outra esquina. Conseguiram
-Hotel Ramones por favor. – Disse Dee tentando ser sério.
Foram cerca de 30 minutos de silêncio dentro do táxi. O taxista, um senhor de origem cubana sempre sério olhando avante, as vezes reparando no retrovisor os três, tentando disfarçar. Querendo que a corrida acabasse logo e já com a consciência que iria levar algum golpe na hora de acertarem a corrida.
- Vinte e dois dinheiros. Disse o motorista.
-Danny arrancou duas notas de vinte e jogou no banco da frente.
-Pensou que íamos roubá-lo não é, seu velho escroto?
- N-não, não quero confusão. Apenas saiam do carro. - disse o velho apavorado.
Mary pegou na mão de Danny, sinalizando algo como, "esquece isso".
Danny e o casal desceram do carro.
Danny era uma drag queen barra pesada mesmo. Não levava desaforo de ninguém.
Chegaram no hotel Ramones. Era um hotel luxuoso no meio de uma região horrorizada pela barbárie de indigentes. Todos que saiam da prisão ou de algum hospício, vinham para essa região pois, era ali onde se tinha a maior concentração de manifestos sociais e ajudas solidárias de várias instituições não governamentais, transformando aquilo num faroeste contemporâneo... urbano e sem muitas regras a se seguir. Apenas sobreviver, comer, e conseguir drogas baratas.
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Já hospedados em um quarto no último andar, Danny arranca seus saltos altíssimos, sua saia desbotada e se joga num grande sofá.
-Hoje vamos nos divertir como nunca. – disse Danny.
Dee já irrequieto pelo seu vício, começa a ofegar, apenas vidrando seus olhos em Danny. Mary nunca tinha estado no hotel e ficou maravilhada com a mobília. Era velha e mal cuidada porém, percebia-se que era de alta qualidade.
Dee começara a suar, algo como uma certa abstinência provocada pela ansiedade de saber que tinha drogas ali, e ainda não tinha aparecido.
Danny e Mary Ann ficam no sofá conversando. Alcançam umas mini garrafas de uísque que tinha em cima do frigobar velho, enferrujados nos cantos.
Começam a beber e Dee fica cada vez mais obcecado em usar a tal droga.
- Danny, vamos usar drogas. – Estou começando a tremer. - disse Dee suando frio e gaguejando.
Danny repara em Dee num tom de deboche, meio quase que intimando-o por estar tão vidrado.
Seu temperamento muda do deboche ao autoritarismo em Dee confrontá-lo.
Para um instante... gargalhadas.
- Está aqui. Vamos usá-la. - Jogando uma trouxinha em cima de uma mesa baixa, que estava em frente ao sofá.
Danny arranca do saquinho um pó amarelado e joga na mesa. Faz três carreiras generosas, pega um canudo e entrega pra Mary Ann
-Você primeiro. - disse Danny gentil.
Mary Ann sem pensar duas vezes, inala com toda a forca e vontade para dentro.
Fica tonta rapidamente... desmaia.
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Imagens destorcidas... silêncio, apenas se enxerga um vulto.
Apaga.
Volta a acordar, zonza... barulho de furadeira, uma aflição ao escutar um ruido parecido com uma serra manual, serrando ossos.
Apaga.
-Está tudo bem querida. Ele já está quase pronto...
Apenas escuta isso. Uma voz doce, tentando assar uma tranquilidade e conforto.
Apaga.
Visão embaçada, um plástico em cima do sofá, um pedaço de carne, talvez uma perna... era grande.
Mary Ann não consegue ver o que era realmente.
Apaga.
Em cima da pequena mesa, aquele pó amarelado ainda estava lá, com sangue coagulado.
Apaga.
Danny sentado ao lado de uma cabeça solta de seu corpo cantarolando. Comendo algo, com sua boca lambuzada de sangue.
Apaga.
Acorda de vez. Meio zonza. Danny está na sua frente, com sua maquiagem mal feita, borrada. Única coisa que conseguira ver era isso. Sua face. Apenas isso. Seus grandes dentes aparentavam faltar alguns, mas era por causa do sangue encardindo-os.
- Tome isso, é um uísque com o pó. Você vai melhorar.
Meio sem saber, Mary Ann toma. Percebe-se que Danny está de luvas cirúrgicas.
Apaga.
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Dias se passaram e Mary Ann acorda. Assustada e sem lembrar de muita coisa. Danny não está mais lá. Começa a perceber a carnificina que rolara ali. Custou a perceber de início pois, estava com tanta sede que abriu o frigobar sem perceber que uma mão humana estava em cima dele.
Tomou água em grandes e fartos goles, saciando sua sede. Respirando fundo, de certo que repara na mão. Encosta nela, talvez de início pensasse que fosse uma mão de brinquedo ou algo assim. Já vira algumas mãos dessas pra vender em bancas e lojinhas de festas.
Percebe que é uma mão humana, a mão de Dee. Uma tatuagem mal feita de uma cruz entre os dedos, com tinta verde.
Se apavora. Começa a abrir os olhos de verdade e perceber o circo de horrores que estava em sua volta. Lembra do flash em que viu uma perna ou algo assim. Se volta para o sofá e a vê outra vez. Eram pedaços do corpo de Danny para todos os lados.
Apavorada, ela liga pra recepção.
O gerente do hotel sobe até lá e se depara com a carnificina.
Espantado, se afasta de Mary Ann. Andando de costas e dizendo a ela para não se mexer. Sai do quarto e a tranca lá.
Algumas horas a polícia chega arrombando a porta.
Leva Mary Ann algemada.
Na saída do hotel, uma grande movimentação da imprensa, fotógrafos, câmera ligadas, repórteres se aglomerando em cima de Mary. Também uma multidão curiosa.
Pensara Mary Ann, como todos estavam ali em tão pouco tempo.
As notícias se espalhavam rapidamente pela mídia e Mary Ann ficou conhecida muito rápido. Um tipo de fama que ninguém gostaria de ter, se é que me entende.
No interrogatório, ela disse que foi Danny quem matou, explicou que Danny era uma drag queen muito amigo de Dee, e os levara para quele quarto de hotel para usar drogas, já que Dee era viciado.
- Não existe uma drag queen. Você deu entrada no hotel apenas os dois. Você e Dee. – Disse o investigador com um charuto na boca e com cara de poucos amigos.
-Como não? O nome dele é Danny. – disse Mary Ann inconformada.
- As impressões digitais suas, estão por todo o lado, na serra manual em que usou para serrar seu amigo. Não encontramos nenhuma outra impressão, apenas sua e da vítima. - disse o outro detetive bigodudo comendo uma rosquinha.
Mary Ann não conseguia acreditar no que estava acontecendo, a essa altura nada mais fazia sentido pra ela. Ela conta tudo, desde o taxi que pegaram juntos até a chegada no hotel.
- Mas que diabos garotos, já disse que não existe nenhuma drag queen chamada Danny. - gritou o bigodudo impaciente e irritado.
Mary Ann foi trancafiada em uma cela separada até o dia de seu julgamento.
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Passaram-se algumas semanas e chega o dia de seu julgamento.
O tribunal estava um caos, e o julgamento estava sendo filmado e transmitido em cadeia nacional, com pessoas massacrando Mary Ann, e outras dizendo que ela sofria de algum tipo de psicose e deveria ser tratada.
Mary Ann muito abalada se senta ao lado de um advogado. No meio de tudo isso, ela avista um homem, bem nos fundos, conhecia aquele rapaz. Firmou os olhos e confirmou sua dúvida.
Era Danny, vestido com um terno. Ela grita e aponta para o homem.
-Ele é o Danny!
Muitos caem na gargalhada, o homem que ela se referia era apenas um estudante de direito acompanhando o caso para algum trabalho na faculdade.
Mary Ann foi levada para um presídio.
As vezes Danny vai visitá-la.

eu confesso que vou precisar ler uma terceira vez pra tentar organizar os fatos na mente, porém, a sequencia dos acontecimentos me prendeu na leitura, muito bom sem contar que a temática, punk, nova york e ramones já me agrada de inicio.
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ResponderExcluirPô bacana essa leitura
ResponderExcluirLeitura extremamente imersiva, excelente!!
ResponderExcluirme prendeu do início ao fim, espero continuação e algo mais concreto sobre Mary Ann
ResponderExcluirShow!. Muito interessante. Parabens
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