A ESBRAVEJANTE LUTA ENTRE CURIAÇU E A TEMPESTADE



 

 

A ESBRAVEJANTE LUTA ENTRE CURIAÇU E A TEMPESTADE - FOLCLORES PARANAENSES

 

(Publicado originalmente na Antologia, Eu e as Lendas Folclóricas, pela Editora Love Jack. Organizador da antologia: Célia Paschoal e Rafaela Oliveira. 2022)

 

 

Araucária- A Araucária é uma árvore encontrada majoritariamente na região Sul do País, em um ecossistema da Mata Atlântica conhecido como Floresta Ombrófila Mista. É a árvore-símbolo do Paraná, por isso também chamada de pinheiro-do-paraná, estado que, originalmente, concentrava a maior parte do ecossistema que abriga a espécie.

 

 

Sem mais delongas, aperto os passos para chegar seguro a algum lugar onde possa me esconder da chuva e do frio que está por chegar. Prevendo que, segundo meu GPS, a chuva chegará logo, em meio a uma floresta fechada, fria, e com poucos mantimentos, começo a perceber que não tenho muitas opções a não ser encontrar uma clareira para poder armar minha barraca e me implantar por ali.

A adrenalina e o perigo constante sempre foram algo que procurei. Em minhas andanças, trilhas, escaladas me encontrava cada vez mais e percebia que nascera para viver assim. Livre e perigosamente. Lembrara em certo ponto que, muitos nativos, antigamente, não tinham a atividade física como meio de se ter uma boa saúde. Eram ativos fisicamente pelo simples fato de que, dependiam da sua boa saúde, e de seu bom físico para poder caçar e cuidar de suas famílias.

Tentava sempre me sentir como um selvagem, quando saia para meus acampamentos e para minhas aventuras. Meus princípios, apesar de tudo, eram também de pesquisar o que se achasse a respeito de como os antigos viviam e tentar reproduzir esse estilo de vida, mesmo que, ao menos alguns dias, ou algumas horas.

Encontro uma clareira, perto de uma enorme Araucária. Acho que nunca vira alguma arvora tão grande em toda minha vida. Chegava a ser assustadoramente linda, com o vento batendo nela, parecendo ouvir ela falar, algo como um uivo de galhos se esforçando para não se deceparem de sua gigante mãe.

Realmente enorme, linda, tanto que, me pego por alguns segundo me distraindo com o tamanho e a beleza de toda aquela monstruosa Araucária.

O vento sopra um pouco mais forte, os primeiros grossos pingos de chuva começam a surtir dos céus. Pensara eu que, grossos pingos de chuva, geralmente são chuvas passageiras, mas muito agressivas.

Armo minha barraca mais que depressa, ao som de bravura e resistência que aquela araucária mugia aparentemente brava, resistindo contra a mãe natureza.

De fato, pensara que, a araucária aparentava ter vida própria, aparentava não querer seguir o seu ciclo, que ao meu ver, poderia terminar ali, com a tempestade se aproximando. Era algo ante natural. A resistência da araucária ao enfrentar toda a força da natureza. Ao meu ver, os mugidos dos galhos, estavam esbravejando para que conseguisse, se esforçando em não deixar os ventos derrubarem sequer uma galha ou sequer uma folha de si mesma.

Mais alguns segundos, entre os olhos na araucária, me pego perdendo tempo para poder armar minha barraca com segurança e escapar da chuva.

A tempestade se aproxima, e a brava e velha Araucária ainda estará em pé. Lutando para ficar ainda intacta.

Depois de arrumar meu lugar, entro em minha barraca, fico com o corpo dentro, mas não consigo parar de observar a gigante arvore brigando com os fortes ventos. Percebo que, estava diante de um perigo intenso ficando próximo a arvore, mas mesmo assim, meio que em transe, bem lá no fundo, começara a acreditar na forca da velha arvore, e de certo modo, torcendo para ela resistir e vencer sua batalha contra os ventos.

Algo que me pegara fazendo, sem sentido e sem lógica, mas com um vigor emocional alto, e uma confiança que nunca havia tido, de que estava seguro perto dela.

Os grossos pingos de chuva começam a cair, pingos que batiam na lona da barraca, enormes gotas, que, com a velocidade pareciam pedras caindo.

Tudo bem, a barraca aguentaria. Fora feita para suportar grandes improvisos naturais. Me pego pensando em como os índios viveram, em situações como esta. Era uma vida de perigos constantes. Predadores, tempestades, ventos, frio, calor, expostos a tudo isso e mesmo assim aguentavam o tranco.

Viver na natureza, não é fácil. Para os índios era o único mundo que tinham, então acostumados com isso, não deveriam se intimidar, esperando sempre o pior e preparados para enfrenta-los.

A gigante e velha araucária luta com os ventos e a tempestade, parecendo uma gladiadora enfrentando seu inimigo. A intensidade dessa luta em que vira, me fez pensar sobre como a natureza é pura, intensa, brava, destemida e sem medo.

Em meios a raios e trovoadas, riscos nos céus, que agora escuro pelas carregadas nuvens, a velha Araucária tem mais um adversário.

Ela luta, destemida. Ela luta, sem ter medo.

Minha obsessão em observar tudo isso, nubla o medo que deveria estar sentindo em meio a todo esse processo.

Minha mente entra cada vez mais em foco na luta entre a Araucária e a Tempestade. Percebo que, a brava Araucária, poderia ser um dos índios mais fortes de sua tribo, defendo ela a todo custo, sem deixar que nada de mal lhes aconteça.

Foram quase uma hora de luta, com a Araucária sofrendo alguns danos, alguns galhos quebrados, mais ainda sim, em pé, inteira.

A tempestade passara, quando ainda olho para a velha árvore, venerando-a, pensado que nunca havia visto uma luta tão majestosa.

Depois de recolher minhas tralhas, a olho outra vez. Digo em voz baixa:

-Você é uma vencedora. Espero que tenho muitos e muitos anos de vida pela frente, e sempre tenha essa coragem e forca para enfrentar quem quer que lhe queira derrubar.

A Araucária parecia me olhar, de algum modo. Balançar seus galhos mesmo sem vento, uma forma, creio eu de querer se comunicar comigo.

Galhos balançando, ela mugiu. Me assusto. Parecia improvável, mas ela sussurrou:

– Estou firme e forte aqui por que meu espírito está dentro dessa árvore. Me chamo Curiaçu. Um índio guerreiro e fui resgatado por essa Araucária em meu leito de morte. Desde então, protejo essa floresta, e todos que estão nela. Você não faz parte dela, mas você estava venerando tanto a luta, e se encantando com minha bravura e resistência, que deixei vivo para poder lhe fazer uma proposta.

Não muito certo de que aquilo era real, mas também não estava assustado com tudo aquilo. Era surreal, improvável, mas mesmo assim ainda me encantei pelos seus sussurros e me deixei levar quase que em transe.

– Você é um admirador da natureza, testemunhou uma grande batalha. Sua alma deve se transportar para outra Araucária, para podermos cada vez mais cuidarmos da nossa floresta. – disse Curiaçu. - Você na verdade, morreria nessa tempestade, apenas estiquei um pouco mais a sua vida, pois, precisava desse seu olhar me venerando para poder completar e vencer minha luta. Um pouco de vaidade de um espírito velho não tem nada de mau. - concluiu.

Mas do que depressa me sinto alto, forte, fincado e bem nutrido. Percebo crescer, subindo, parecia flutuar. Percebo que, virei uma velha Araucária também. Um vigor e uma saúde que nunca sentira, uma vontade de esbravejar, mugir alto. Uma sensação de grandeza e ser invencível.

Me torno uma Araucária, assim como Curiaçu se tornou. Me torno uma guardiã das florestas, e das Araucárias.

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