ENTREVISTA COM A CINEASTA ALES DE LARA E UMA BREVE ANÁLISE DE SEU CURTA, VAI TER QUE ENGOLIR!

 

Entrevista publicada originalmente pela revista 666Terror. em 2022.

Por Rodrigo Leonardi.

1. Comece falando como surgiu seu interesse por cinema.

 

Surgiu na infância/ adolescência com os programas de bastidores. Eu adorava assistir "A Magia do Cinema" um programa que surgiu em 1997 sobre efeitos especiais voltados ao público infanto juvenil. Sempre fui fissurada pelas maquiagens, animatrônicos e fantoches, muito usados nos filmes de terror e fantasia da época. Sempre gostei mais do cinema fantástico e os bastidores desses filmes é que despertaram a vontade de fazer.

 

2. Muita de suas obras envolve o sobrenatural, esse é o seu estilo preferido, ou tem outro motivo para focar mais nesse tema?

 

Na verdade eu sou fanática por monstros, mas o sobrenatural não está muito atrás. Acho que gosto de fazer filmes sobre esse tema por que existe uma perturbação pós filme, com a qual eu gosto de brincar. Meu primeiro filme foi baseado numa horror short story, era uma história de, literalmente, duas linhas. Eu me encantei com a ideia de poder implantar o medo em alguém com pouco tempo e acabei seguindo por aí. Além de ser um estilo que pode ser explorado sem grandes gastos, já que temos que levar em consideração o orçamento também. Mas em breve sai o longa "Drops From Hell" com o seguimento “Balzaquianas” que é uma co-direção minha e vocês vão poder conferir minha/nossa primeira criatura.

 

3. Certa vez, pulando de canal em canal em casa, te achei participando do programa Cinelab. Como foi a experiencia de ter participado e o quais foram os frutos colhidos com essa experiencia?

 

Foi uma das mais loucas da minha vida, enriquecedora e cheia de emoções. É muita pressão e são muitas variáveis, não é fácil. Viramos todos muito amigos já no começo, o que tornou ainda mais difícil a competição (eu sou super emotiva). Eu aprendi muito lá dentro, não só sobre efeitos e filmes, mas também sobre mim. Entre os frutos colhidos estão os amigos que eu levei pra vida, os aprendizados e a minha mudança pessoal. Um tempo depois eu voltei a estudar, fui fazer uma pós-graduação na área. O programa me ajudou a ter mais certeza sobre querer isso pra minha vida profissional.

 

4. Quais outros ofícios dentro do cinema você já exerceu, além de dirigir?

 

Já fiz assistência de direção, editei, atuei (tentei pelo menos), entre outros, mas a minha outra verdadeira área é maquiagem de caracterização e efeitos. Eu comecei como maquiadora, cheguei até aqui graças ao conhecimento adquirido trabalhando com maquiagem e é também a área que me interessava quando criança. A maquiagem e os efeitos especiais sempre terão um lugar especial e eu pretendo trazer mais nessa área para os meus próximos filmes.

 

5. Como é fazer cinema no Brasil?

 

Eu não sei como é no circuito comercial, mas como produção independente não é fácil. É um teste de resiliência. Precisa gostar mesmo, porque o retorno não é bom. Porém, ao mesmo tempo, é a profissão mais divertida que eu já tive na vida. A galera que faz terror aqui é uma galera muito legal e um set de terror é divertido como nenhum outro. Não tem quem não volte a ser criança numa cena de banho de sangue. Trabalhei recentemente como uma atriz que nunca tinha feito nada de terror e ela também comentou "o quanto foi divertido morrer". É isso: trabalho duro com boas doses de risada, sangue, gosma e maquiagem.

 

6. Me diga suas influencias no cinema e influencias usadas em suas obras

 

Na infância foi o meu diretor preferido, Tim Burton. Ele é o responsável por eu começar a prestar atenção em quem dirigia os filmes. Suas obras misturam terror, comédia e drama e foram terra fértil pra minha imaginação, facilitando a apreciação do gênero pra mim, que já fui uma criança medrosa. Ele é uma grande influência pessoal.

Não dá para não falar do José Mojica Marins, o famoso Zé do Caixão, pois ele foi o grande abre portas para todos nós. Qualquer pessoa que trabalhe com horror atualmente no Brasil precisa reconhecer sua importância e contribuição.

Desde os anos 2000 uma forte influência tem sido Paulo Biscaia Filho, diretor de cinema e teatro curitibano. Ele faz parte das minhas inspirações, tendo sido recentemente meu professor. O Paulo faz cinema nos palcos. Assistir uma peça dele é ver um filme ao vivo e tem efeitos práticos melhores que muito filme famoso por aí (com a dificuldade de não ter cortes ou ângulos seguros).

Rodrigo Aragão e Kapel Furman também precisam ser citados, pois ambos são mestres na maquiagem e nos efeitos, além de diretores. Não tem como não se inspirar neles.

Juliana Rojas e Gabriela do Amaral são quem eu quero ser quando crescer, dois fortes nomes na direção do cinema de horror brasileiro.

Quanto as influências usadas nas minhas obras: "Os pássaros” 1963, “O Bebe de Rosemary" 1968, "Carrie, a Estranha" 1976, "O Iluminado" 1980, "A Troca" 1980, o curta metragem "Frankenweenie" 1984, "O Cemitério Maldito" 1989, "Melancolia" 2011, “O babadook” 2014, série "A Garota de Fora" 2018, livros do Stephen King, livros do Niel Gaiman, o movimento artístico tenebrismo e diversas creep pastas que eu já li.

 

7. Indique para os leitores alguns filmes que você acha essenciais.

 

Carrie, a estranha (1976) é um excelente filme que provoca diversas discussões na atualidade e vale a pena tanto como entretenimento quanto pra fomentar esses debates. Foi marcante para mim por ser uma mulher no papel de monstro e é um dos meus filmes preferidos de terror.

Gremilins (1984 e o 2 de 1990) são filmes incríveis em termos de efeitos especiais práticos (dê um desconto para os efeitos visuais da época), criaturas lindamente horrorosas e rendem boas risadas. A continuação não perde em nada para o primeiro, eles ainda adaptam as criaturas trazendo muita novidade.

Os Fantasmas se Divertem (1988) representando meu diretor preferido. Ainda com efeitos visuais limitados, porém com maquiagens e efeitos práticos incríveis, além da maquete que tem uma inversão de papel na sua utilização. Quando na época as maquetes eram muito usadas pra representar coisas grandes numa escala menor, aqui ela foi usada como maquete mesmo, tendo um set em escala grande para representar ela em escala maior (não é legal?).

 

8. Deixe seus endereços eletrônicos e onde podemos encontrar suas obras.

 

Ixi, no momento tenho pouca coisa disponível na internet. Mas fique à vontade para me seguir no instagram Ales de Lara, lá eu sempre informo o pessoal quando um filme está disponível para visualização em Festivais. No face tem o Ales de Lara Portfólio (levemente bagunçado) e vale a pena ficar de olho no youtube do coletivo independente Tattooira Produções, que é onde os filmes ficarão disponíveis quando pararem de rodar festivais.

 

https://youtube.com/@tattooiraproducoes7144

 

 https://instagram.com/alesdelara?igshid=MzNlNGNkZWQ4Mg==

 

https://www.facebook.com/profile.php?id=100063931034823&mibextid=ZbWKwL

 


 

Vai Ter Que Engolir (2022)
Ales de Lara

Eis que, Ales nos surpreende mais uma vez. Dessa vez, as incertezas sobrenaturais, misturado com o gore tomam conta de sua mais recente obra.
Marilia, vive presa em um relacionamento abusivo. Certo dia, ela tem uma visita inesperada. Quando seu marido chega em casa, exigindo seu jantar e sendo agressivo com Marilia, ele percebe que ela não está só. Mal sabe Alberto o que lhe espera.
Quando digo incertezas, coloco em pauta a visita misteriosa, que pode soar algo sobrenatural, ou apenas o seu id agindo. Quem sabe, possa ser mais que isso, mas o que vemos na obra soa reconfortante, dando a sensação de vingança para a protagonista. Pelo que percebi, Ales e uma diretora que gosta de abusar de longos takes e por aqui se vê essa sua marca, onde a cena mais chamativa da obra, se esvai com fotografia precisa e atuações incorruptas. O curta soa também como um grito de protesto contra o feminicidio, onde percebamos que é algo que acontece diariamente no nosso país.
Vai Ter que engolir bebe da fonte do Gore, realçando ainda mais o estilo, com o toque especial da grande diretora que Ales é.
 

 

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