ENTREVISTA COM O CINEASTA PETTER BAIESTORF

 


  1. Saudações Petter. Primeiramente, quero agradecer você, a ter cedido tempo para conversar um pouco com a Revista 666Terror. Já fazem mais de trinta anos que você está envolvido na arte, seja cinema, literatura e música. Sei que tu escrevias fanzines no final dos anos oitenta e já teve banda também. O que veio primeiro, cinema, literatura ou música? 

Baiestorf: O cinema apareceu primeiro na minha vida. Ainda criança eu já era fascinado pelo cinema e queria saber como as coisas eram feitas. Filmes como The War of the Worlds (Guerra dos Mundos, 1953) e The Incredible Melting Man (O Incrível Homem que Derreteu, 1977) me fizeram querer entender os efeitos especiais e, principalmente, como eram feitas as maquiagens gores. Então essa fascinação toda me colocou rumo ao único caminho que eu poderia seguir: Cinema. Mas fazer cinema na década de 1990 no Brasil era um troço complicado, então (ainda na década de 1980) comecei a escrever contos, poesias macabras e a colaborar em fanzines. Como gostei da experiência, comecei a editar meus próprios zines, com títulos como Arghhh, Clássicos Canibal, Necrófilia, Defecando Urros, Surreal, Lixo B, Pus Diet e outros, que misturavam quadrinhos escatológicos com literatura maldita e matérias sobre cinema obscuro (numa época pré-internet, eu tinha uma rede de colaboradores de países como Canadá, Espanha e Portugal para apresentar aos leitores brasileiros um cinema mais extremo, que não chegava ao nosso país). Então, em paralelo à produção de fanzines, conheci um mundo de bandas punks e grindcore e suas demo tapes maravilhosas. Aquele universo das demo tapes me deu um estalo: fazer meus próprios filmes com câmeras VHS e comercializar em fitas VHS igual as bandas faziam com suas músicas nas fitas K7. Em 1991 comecei a reunir um animado grupo de amigos criativos ao meu redor e em 1992 começamos a filmar. Nosso primeiro filme foi lançado em 1993, chama-se Criaturas Hediondas, e na época foi um estrondoso sucesso (de visibilidade, não de dinheiro), porque pegou todo o underground brasileiro de surpresa pelo ineditismo da coisa. O resto é uma história que conto no livro Canibal Filmes — Os Bastidores da Gorechanchada. 

 

  1. Imagino o quão difícil era conhecer obras no cinema independente nos anos noventa. Qual era as maiores inspirações para se fazer filme naquela época? 

Baiestorf: Olha só, mesmo antes da internet, nunca achei difícil conseguir filmes, por mais obscuros que fossem. Eu mantinha contato com colecionadores de várias partes do mundo, então fazia trocas de filmes em VHS. Troquei muito filme meu e produções da Boca do Lixo paulista por filmes extremamente difíceis de conseguir na década de 1990. Então fui tendo acesso a um estilo de cinema selvagem que era produzido no mundo. Foi assim que vi as obras de John Waters, Jesus Franco, Joe D’Amato, Jörg Buttgereit, Jodorowsky, Arrabal, Tohjiro e todo um cinema extremo japonês, cinema experimental americano, o horror indiano, o cinema turco, o cinema surrealista do leste europeu, o cinema de horror/sci-fi de Hong Kong, o fabuloso mundo do Shot On Video mundial e muita coisa que só ficou mais popular após a internet ter boa velocidade para download de filmes. Na década de 1990 a lei era: quanto pior, melhor! Ninguém queria saber de cinema bonzinho ou destes bagulhos de grandes estúdios, todo mundo queria ver filmes podreiras, violentos, diferentes/estranhos. Todo mundo queria ver produções independentes, provocativas, que confrontavam o sistema. Era outro tipo de mentalidade. Então era muito natural que meus primeiros filmes fossem neste sentido do “quanto pior, melhor!”, que é algo que adoro fazer e faz parte da minha personalidade, preciso deixar registrado! 

 

  1. Como está a Canibal Filmes atualmente?  

Baiestorf: A Canibal Filmes está parada. Vou manter ela parada por um tempo. Explico: Não estou conseguindo fazer filmes mais extremos, então achei melhor deixar ela parada. Ela não foi encerrada, mas está aguardando um projeto extremo para voltar com sua irreverência. Por enquanto estou fazendo filmes pela Petter Baiestorf Produções, acabamos de filmar Manto, com roteiro e direção de Maria Trika, na cidade de Belo Horizonte, que é um filme gore erótico. 

 

  1. Conte um pouco de como foi escrever o livro da sua produtora, Canibal Filmes- Os Bastidores da Gorechanchada? 

Baiestorf: Depois que lancei o longa Zombio 2, em 2013, percebi que o jeitão antigo de fazer filmes que praticávamos na Canibal Filmes já não tinha mais espaço. Então comecei a amadurecer a ideia de escrever um livro contando como fazíamos filmes na década de 1990. Em 2015 comecei a escrever, a organizar material de imprensa, entrevistas antigas, reviews  de fanzines e passei a entrevistar os principais colaboradores da produtora, pessoal como E.B. Toniolli, Coffin Souza, Airton Bratz, Loures Jahnke, Marcos Braun, Leomar Wazlawick, Onésia Liotto, Carli Bortolanza, Elio Copini, Gurcius Gewdner, André Luiz, Ljana Carrion, Lane ABC, Miyuki Tachibana, PC, Adriano Trindade, Leyla Buk, Alexandre Brunoro, Marcelo Severo, Leandro Dal Cero, Rose de Andrade, Vinnie Bressan, Felipe M. Guerra, Andye Iore e todo mundo que, de algum modo, foi importante na construção dos filmes e da nossa história. Eu passei três anos coletando material e organizando tudo, aí tirei um ano e meio para escrever a coisa toda. Com o livro finalizado fui atrás de um editor, mas todas as propostas que eu estava recebendo de editoras estabelecidas para a publicação eram meio ruins. O mercado editorial/cultural brasileiro trata muito mal seus escritores/cineastas/artistas e me recuso a aceitar este tratamento torpe. Aí, em 2019, o Frederico Neto e o João Horst, da produtora Sangue TV, se interessaram pelo projeto e resolvemos fazer um catarse para levantar o dinheiro necessário para a produção de uma edição de luxo (eu realmente não iria topar nenhuma editora que não desse tratamento de luxo ao material) e encaramos mais essa produção 100% independente, produzida com grana de fãs e admiradores. Neste processo todo, eu tinha chamado o Fabiano Soares pra ser revisor do texto e organizador da nossa campanha de catarse e como tudo estava fluindo com ele, que é um cara inteligente e aplicado, o convidei para estrear como editor. Inicialmente o Fabiano ficou apavorado com a ideia de ser editor de um livro tão grande, mas o tranquilizei dizendo que eu, Frederico e João daríamos todo o suporte necessário para ele fazer bonito. Foi uma delícia fazer este projeto, que teve tiragem de mil exemplares e conseguimos vender 70% de tudo. O livro foi lançado em 2020, em plena pandemia, quando tudo estava parado. 

 

  1. Li em algum lugar que você foi o criador de uma estética chamada Kanibaru Sinema, onde inclusive lançou um livro em Parceria de Coffin Souza sobre o assunto. Como você define esse estilo? E qual foi as vantagens desse feito, no cenário de filmes independentes? 

Baiestorf: Em 2002 lancei um fanzine chamado Manifesto Canibal. Neste zine eu teorizava sobre o Shot On Video, eu não criava uma estética, mas sim, organizava as ideias de uma estética que já existia e não tinha material teórico. O Shot On Video, ou SOV, é o estilo de cinema que faço, que é um cinema afetivo, produzido de forma amadora, com ajuda de amigos e entusiasta do gênero. É bastante popular nos USA, Nigéria, Uganda, Japão e alguns país da Europa (principalmente Alemanha, França e Inglaterra). Este zine teve mais de mil exemplares distribuídos e ganhou 4 re-edições com mais mil exemplares cada no período de um ano seguinte, ou seja, entre 2002 e 2003, teve mais de 5 mil exemplares distribuídos pelo underground brasileiro. Isso chamou atenção da Editora Achiamé. Robson, o editor, me chamou para fazermos uma edição livro de bolso. Aí chamei o Coffin Souza e a gente escreveu em parceria o livro, onde expandíamos o zine e provocávamos os leitores em vários artigos curtinhos. Em 2004 o livro saiu e foi um marco dentro da literatura cinematográfica independente, sendo considerado uma espécie de “bíbria por muitos jovens. Então o Manifesto Canibal não é a criação de uma estética, como foi erroneamente espalhado, mas sim a organização teórica do Shot On Video. Por anos editores ficava me aporrinhando pra lançar uma segunda edição, mas todas as propostas eram muito ruins. Então em 2021, após a parceria com Fabiano Soares na produção do Canibal Filmes, resolvi que finalmente era hora de relançar. Re-organizei a coisa toda, escrevi novos capítulos, atualizamos os capítulos do Souza (com aval do próprio Souza) e relançamos em uma edição de luxo, ampliada e revisada. Nessa segunda edição pude chamar muito artista talentoso pro projeto, então contratei Angelo Arede, da Gangrena Gasosa, pra fazer a capa (ele se tornou nosso capista oficial); E.B. Toniolli pra diagramação; Gurcius Gewdner pras montagens fotográficas; e, também, várias ilustradoras que sou fã dos trabalhos, como Leyla Buk, Riot Sistah, Kell Candido, Cláudia Pomba, Daniela Távora e Airton Bratz, para a criação das artes internas. Minha dica é que, se você se interessa pela produção Shot On Video, este é um livro para você conhecer. 

 

 


 

 

  1. Acredito que, indo na contra mão do cinema convencional, possa ter alcançado curiosidades e também uma originalidade em suas obras. Qual o impacto delas na sociedade e geralmente qual o tipo de feedback que você recebe ou já recebeu dentre os trinta anos de carreira? 

Baiestorf: Geralmente não escrevo/produzo meus filmes tentando agradar o público. Eu dou vazão às minhas ideias pouco convencionais e persigo essa liberdade. Se alguém gostar, delícia, e é isso aí! Mas não persigo um público. Lógico que existe essa coisa de uma produção ter de bancar a próxima produção dentro de minha logística de independência, mas uma coisa que aprendi com a idade é que existe público para tudo que fizermos, só precisamos divulgar nos guetos certos. Minha arte nunca foi, nem vai ser, pensada pra um grande público, então dito isso, tiro todo o peso do mercado capitalista/escravagista de minhas costas e estou apto para fazer o que eu quiser, quando quiser, da forma que eu quiser. Após estes 30 anos de produção me sinto começando a cada nova obra. Não sou exatamente um cara nostálgico, não acho que gente velha é um oráculo do saber. Estou sempre de olho nos jovens, tentando entender pra onde estamos indo como sociedade, como artistas. Enfim, o que quero dizer é que me sinto sempre começando do zero. 

 

  1. Vi que você estava produzindo um curta, Manto. Escrito e dirigido por Maria Trika, que foi feito pelo arrecadamento coletivo via catarse. O que pode nos contar sobre essa obra, já que ela ainda não fora lançada? 

Baiestorf: Ajudei a produzir o filme Manto, da Maria Trika, que foi filmado em dezembro de 2022, com uma equipe de formada, principalmente, mulheres lésbicas. É uma obra erótica, mas essencialmente política, principalmente na forma como foi construída/produzida, empregando mulheres lésbicas nas principais funções de uma produção cinematográfica. Foram 10 dias de filmagens, com um orçamento pequeno, mas com um resultado profissional. No elenco contamos com Bella Camero, Ayá Ndpcon e Teuda Bara. As maquiagens gores foram feitas pela Guta Bodick e a direção de fotografia, que está maravilhosa, é de Joanna Ramos. Agora o filme está em processo de edição, tratamento de cor e outras correções de pós. Se nada der errado, será lançado até maio de 2023. 

 

  1. Ultimamente percebo que está deixando um pouco a direção de lado e ocupando o oficio de produtor. Ainda podemos esperar mais obras com você na direção? 

Baiestorf: Bem, eu sempre fui produtor, se levarmos em consideração que fui produtor (ou produtor executivo) de todos os filmes da Canibal Filmes, mesmo aqueles que não dirigi. Aí, nestes últimos 7 anos, não dirigi mais porque estive ocupado escrevendo e produzindo livros e revistas, ou atuando como ator em filmes de outros produtores (só em 2023, deve sair uns 7 filmes onde tenho algum tipo de atuação). E, neste processo todo, resolvi produzir alguns filmes que quero ver feitos por pessoas talentosas que admiro. Também estou fazendo várias curadorias em festivais de horror e sci-fi, então toda essa atividade, aliada aos meus projetos (que foram ficando cada vez mais caros de se produzir), optei por não dirigir mais. Devo voltar à direção neste ano, mas num filme pequeno que será feito nos moldes das produções da década de 1990, onde vou reencontrar um monte de pessoas que trabalharam comigo no início da carreira. Ainda não posso falar deste projeto porque ele está em desenvolvimento. Mas uma volta valendo à direção, só quando eu estiver com o orçamento correto em mãos ou tiver como fazer um filme mais extremo. Não quero fazer filminhos comportados, cheio de gente aqui no Brasil que faz filminhos comportados muito melhor do que eu. Enquanto não volto a dirigir, vou produzir projetos de filmes ousados que me oferecerem e continuar editando livros e revistas independentes. 

 

  1. A Petter Baiestorf Produções fora feita para distinguir obras da Canibal Filmes com outros segmentos? 

Baiestorf: Em 2001 eu ia criar a Baiestorfilmes e parar com a Canibal Filmes. Mas por algum motivo não fiz. Então, agora, resolvi começar assinar meus projetos pessoais com o nome Petter Baiestorf Produções. Todos os livros e revistas que lancei nos últimos anos já eram pra ter este nome/logo novo, mas fiquei enrolando. A título de curiosidade: todas as restaurações que banquei sozinho dos filmes antigos são um projeto Petter Baiestorf Produções, não da Canibal Filmes. Essencialmente, todo o projeto que eu bancar financeiramente (ou levantar o dinheiro via financiamento coletivo), será Petter Baiestorf Produções, e as produções feitas com recursos coletivos, serão Canibal Filmes. 

 

  1. O quão cinéfilo é Petter Baiestorf? 

Baiestorf: Vou responder isso de uma forma bem direta: Petter Baiestorf deixa de sair com amigos, ou ir em festas, pra ficar em casa vendo filmes! 

 

  1. Chegando ao fim, qual é o seu top 10 filmes de todos os tempos? 

Baiestorf: Acho complicado demais escolher apenas 10 filmes, eu estaria sendo injusto demais com milhares de filmes maravilhosos. Mas vou citar 10 diretores que aconselho você assistir ao máximo de filmes que eles realizaram e estudar seus métodos de produção de um filme: Roger Corman, foi diretor/produtor e a Nova Hollywood se criou das oportunidades de trabalho que ele criava. Ele é o cara que lançou gente como Jack Nicholson, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, Joe Dante, James Cameron e tantos outros. Russ Meyer, que criou todo um métodos de produção de filmes independentes que o deixaram milionário. George Kuchar, que realizava produções maravilhosas em super 8, 16mm ou vídeo, com ajuda de amigos e vizinhos. Doris Wishman, produtora/diretora independente que realizou filmes maravilhosos numa época que o cinema era dominado por mentes masculinas. Roberta Findlay, que realizou filmaços independentes que foram de obras exploitations, passando pelo cinema de horror, até pornografia maravilhosamente fotografada. Vera Chytilová, realizadora checa de filmes inventivos que foram banidos em seu país. Melvin Van Peebles, produtor/diretor que abriu as portas para toda uma geração de cineastas afro-americanos. Koji Wakamatsu, produtor/diretor japonês que realizava filmes eróticos políticos radicais e tinha muito público. Shüji Terayama, experimentalista político radical do cinema japonês que fez filmes geniais. Ozualdo Candeias, o cineasta mais inventivo do cinema brasileiro. E, finalmente, Nabwana I.G.G., cineasta Shot On Video de Uganda que realiza filmaços com um punhado de dólares. E me sigam no Letterboxd (https://letterboxd.com/PetterBaiestorf/), que lá eu sempre indicando filmes obscuros ou curiosos. E, se você ficou interessado em algum dos livros ou filmes que produzi, pode comprar diretamente comigo, pelo e-mail baiestorf@yahoo.com.br 

 


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