ROBERT, O CAÇADOR- Capítulo 4 e 5.

 



Aquele rapaz

Robert saboreou seu prato. Deliciou-se, lambeu os dedos ao final da refeição. Estava satisfeito.

Não se encheu de tanto comer para não se enojar. Jogou o resto em uma sacola preta, e colocou no fundo do quintal, separado dos outros lixos.

Era cuidadoso. Deitou-se na cama e fez uma oração. Pediu para que não tivesse pesadelos.

Os pesadelos de Robert eram pesados. Sonhava que estava matando alguém, e sempre era pego. Na cadeia era estuprado e torturado. A dor que sentia era inexplicável.

Então ele orava, e pediu para não tê-los. Quase sempre dava certo.

Deitou-se. Começou a pensar na vida. Sentia vontade de levar uma vida normal. Difícil!

Vida boa, para ele, normalmente era a que ele levava. Vida boa era ter cadáveres a torto e a direita para que ele se deliciasse. Sua fome era insaciável.

Lembrara-se de uma vez em que matou a filha da vizinha, que até hoje está sem paradeiro. Lembrava-se da maciez da carne. Da pele frita, e dos lábios vaginas que serviu a si mesmo em forma de ceviche1. Como disse, era um homem entendido de culinária.

A saliva se escorria pelos lábios, mesmo depois de um farto jantar. A fome era imensa.

Lembrou-se do jovem novato que trabalhava com ele.

— Talvez seja a última vez que faça isso. — murmurou, já pressentindo que seus dias de caça estavam chegando ao fim.

— Preciso parar antes que algo dê errado. Ainda tenho que ser aquele homem que prometi aos meus pais. Ainda tenho que alcançar a salvação divina. Temo em morrer e ir morar no inferno. Não seria bom para mim. Não ia ser bem aceito... Nem no inferno. — pensou em voz alta. Mas a fome pelo rapaz era imensa e ele já estava decidido. Só não sabia como e quando, pois, era uma vítima do seu ambiente de trabalho. Era uma vítima que muitos conhecidos dariam por falta. .

Era uma caça difícil, não impossível, porém muito difícil... Como fazer sem deixar rastros?

Começou a pensar em alguma tática para apanhar a presa.

— Talvez observá-lo, ou segui-lo por um tempo. Ver o que faz; lugares que frequenta; tipo de pessoas com quem se relaciona... — murmurou tentando achar uma saída.

Talvez...

— Não suspeitariam de mim... Será? — indagou.

Robert estava tentando achar probabilidades para abocanhar a presa. Difícil...

Então resolveu que ia observá-lo por um tempo. Que também não tentaria fazer amizade com o jovem.

O mínimo de contato pode ser um álibi bom”. — pensou.

Parou por um instante. Estava ansioso. Precisava de seu remédio para poder pensar melhor. Se conter para não fazer nenhuma bobagem ou até mesmo ser pego.

Levantou-se, foi até o banheiro. Olhou para os azulejos antigos em forma de rendas azuis. Sentiu a velharia na alma. Lembrou-se de quando era jovem, por um instante. Lembrou-se que não sentia essa fome quando era apenas um garoto na faculdade. Isso veio depois... Bem depois.

— Mas quando? — perguntou a si mesmo

Não se lembrava. .

Abriu a porta da pia e pegou o remédio. Tomou 2 comprimidos de fluoxetina, 75 mg cada.

Voltou para seu quarto e se deitou novamente. . Bocejou. Espreguiçou-se. Fixou os olhos no teto e ficou em transe, sem piscar por um momento, com a mente vaga e quase sem pensamentos.

Decidiu...

— Esperarei. Vou ter a calma necessária para essa presa. O banquete vai ser o melhor de todos.·.


 

Capítulo. 5


Então, o inesperado acontece.

Na manhã seguinte, Robert acordou animado. Não teve pesadelos e dormiu feito um bebê. Graças à alta dose de remédio que tomara na noite anterior.

Estava uma manhã fria.

Robert se vestiu, lavou o rosto, se penteou e foi trabalhar.

— Hoje vou tomar café na rua. — murmurou

Sempre que possível, ia a uma barraquinha de cachorro quente que tinha bem próximo do seu trabalho. E foi lá que Robert se enfiou.

Deu bom dia ao senhor do carrinho, contou umas piadas sem graça e pediu um cachorro quente dos grandes.

Enquanto esperava, se deliciava com aquela manhã fria, olhando para as arvores sem folhas, completamente secas. Reparando no fraco sol iluminando boa parte da rua, já que os prédios impediam de o astro rei se mostrar completamente. Não estava uma linda manhã com rouxinóis cantando nas arvores, e nem crianças brincando de bola nas ruas. Estava vazio, meio silencioso. Aquele silêncio habitual de pessoas escondendo-se do frio. Mas Robert estava amando tudo aquilo.

Tudo estava lindo. Lindo!

Comeu seu cachorro quente, se limpou, pagou o velho, dando uma gorjeta e seguiu seu caminho até o trabalho.

Olhando para o nada e respirando fundo, sentindo aquele ar limpo que só existe no litoral, ou em dias de frio como aquele.

Sem muita pressa para chegar ao trabalho, andando devagar e admirando.

A rua vazia, de longe avistou uma moça caminhando em sua direção.

Cabelos pretos, piercing no nariz, sobrancelhas, e na boca. Magra, alta, vestida com trajes góticos, ou algo do tipo.

Imaginou que o desuso do uniforme contribuía para a identificação da personalidade de cada pessoa. Robert sempre foi atencioso com tudo. Jeitos, trejeitos, roupas, andares. Tudo.

Mas era de se esperar, afinal, já havia muito tempo que matava, e nunca sequer desconfiaram dele.

Enfim, a garota se aproxima e Robert fixa o olhar de cima em baixo, discretamente na jovem.

— “não faz meu tipo”. — pensou.

Vindo em sua direção, Robert, com os olhos fixados nos sapatos da moça e, com as vistas subindo até seu rosto, percebe que o olhar da garota também está fixo nele, e em sua boca, um sorriso irônico.

Ele percebe. Tenta disfarçar. Olha para o lado por uns segundos. Volta a encará-la Ela ainda está caminhando em sua direção, o olhando com aquele sorriso desconcertante.

Quase se cruzando, a moça sussurra, com um sorriso.

— Eu sei quem é você e o que você faz.

Robert estala os olhos. Não diz nada, apenas segue com os olhos a jovem passando por ele.

Seu corpo entra em transe, faz com que sinta frio dos pés à cabeça. Coisa que nunca sentira.

Indignado, estarrecido, pensa:

“Como alguém poderia saber de algo, uma jovem garota, ainda?”.

Só a observou, boquiaberto. Não tinha reação para falar nada. Paralisou na calçada e viu a garota sumir entre uma esquina e outra.

O lindo dia que se seguia em sua mente acabara. As lindas árvores sem folhas, ressecadas pelo frio agora tinham o seu real proposito Parecia que voltara há tempos onde não encontrava paz, e não sentia remorsos.

Naquele momento, ele sentiu.

O coração acelerou em seu peito a ponto demostrar-se na camisa. .

Não ia conseguir trabalhar. Não ia conseguir chegar ao escritório e encarar todo o pessoal. Começou a desconfiar até de sua própria sombra.

— Não estou acreditando! — murmurou.

Voltou a caminhar olhando para trás, tentando achar um motivo obvio para esse fato.

— Será que não é coisa da minha cabeça? — pensou em voz alta.

Como vou saber agora?!” — pensou de forma exclamada.

“Não vou conseguir trabalhar hoje”.

A incerteza, e uma vergonha grande tomaram conta de Robert.

— Se ela sabe mesmo? Que horror!

“Se ela sabe de tudo o que eu fiz, meus planos não foram perfeitos”.

Caminhou mais um pouco e parou.

Olhou para trás de novo. Nenhum sinal da garota.

Deu meia volta em direção contraria ao seu trabalho, andou pensando. Onde poderia ir para se acalmar?

Era muito cedo.

“Preciso de mais remédios!” — pensou.


CONTINUA...



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