Por Rodrigo Leonardi
O Melhor ano do cinema do resto de nossas vidas
O ano de 1995 marcaria o cinema mundial de forma ímpar e com uma impiedade magistral.
Um ano onde, Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont e baseado na novela, Rita Hayworth and Shawshank Redemption do mestre Stephen King, chegara as telas de forma inusitada, recebendo seis indicações ao Oscar. Uma avalanche de ótimas atuações, agregadas à uma história clichê, de um homem acusado de matar a esposa e o amante, no qual fora condenado à prisão perpétua. Mesmo sabendo que Dufresne (Tim Robbins),era inocente. (Só saberíamos disso no final do filme, mas o apego ao personagem, já nos dava uma real visão da inocência. mesmo também sabendo que ele fugiria no final, torna o mesmo convencional). Mas para entendermos isso, basta se apegar com uma coisa: as atuações e a narração de Red (Morgan Freeman). Tudo soa normal em Um Sonho de Liberdade. Stephen King, por sua vez, também deixou as coisas normalizadas em seu âmbito como escritor. Algo muito comum e corriqueiro em seus romances. O estado do Maine. Assim foi com quase todas as suas histórias onde o escritor, praticamente como uma regra, destaca seu estado natal.

Um sonho de Liberdade demorou para cair nas graças do público, e talvez, ainda não se pagou, já que seu orçamento fora de aproximadamente 25 milhões, com uma receita de 29 milhões. A crítica especializada elogiou a história e as atuações de Freeman e Robbins, porém o público não foi um alvo que fora acertado, causando prejuízos financeiros.
Algo também a se analisar em Um Sonho de Liberdade, são as contradições religiosas, onde o mal cita, a todo momento as retóricas messiânicas, vindo do severo diretor religioso Samuel Norton, (Bob Gunton), com sua postura e viés típicos dos homens que usam a palavra do Senhor para se safar e esconder seus próprios instintos nefastos. Tendo também, como seu braço direito, o truculento guarda Byron Hadley (Clancy Brown), seguindo a mesma linha messiânica de Norton. Por outro lado está Dufresne e Red, romantizados pela visão e empatia de dois prisioneiros, que de forma analítica, se contentam em passar dias rotineiros e cheios de esperanças atrás das grades de Shawshank.
Um Sonho de Liberdade também trata de uma história de amor não sexual entre dois homens, segundo o filósofo Alexander Hooke, argumentou que a verdadeira liberdade de dois personagens é sua amizade.
Fato que, fora as inusitadas indicações da Academia, o filme ficou durante muitos anos em segundo lugar no hall de melhores filmes já feito da IMDB, quando ainda não tínhamos tantos idiotas palpitando na internet e quando a mesma de fato era para nerds noventistas.
É um filme sublime, cercado de excelentes atores, do protagonista até o mero coadjuvante, onde todo o processo fez sentido graças a esses quesitos.

Mas 1995, entraria para a história do cinema não apenas por ter tido o deslumbre de uma história de Stephen King, que não fora um clássico terror ou suspense ter virado filme. Ainda todos tiveram que lidar com um segundo trabalho, de um jovem diretor. Pulp Fiction - Tempo de Violência. segundo filme de Quentin Tarantino, traz uma bagagem cult. Talvez o único filme que já nascera com esse status de filme cult.
Tarantino, ousado, diferenciado, fez de Pulp Fiction, linhas técnicas clássicas. Por homenagem ao cinema? Talvez sim, talvez não. Mas fato que, sua obra enraizou na cultura pop de tal forma, que até os tempos atuais, se vende material do longa, como camisetas, canecas, chaveiros. Cópias de cigarros fictícios como Red Apple e também de um lanche havaiano chamado Big Kahuna Burger, até hoje incendeiam a cultura pop.

Pulp Fiction, prova que o diretor fez muita diferença em todo o processo. Tarantino se firmaria ainda mais no propósito real de dirigir atores. Resgatou John Travolta, praticamente do fundo do poço, onde o mesmo fora indicado a melhor ator coadjuvante. Pulp Fiction, sem dúvida alguma foi o grande triunfo de Tarantino, onde num clássico Cães de Aluguel, com um orçamento baixíssimo, acendeu a chama e a curiosidade da crítica e do público em cima do diretor. Seguindo de Assassinos por Natureza e Amor à Queima Roupa, onde o mesmo fora impedido de dirigir por algum tubarão da indústria cinematográfica, assinando o roteiro desses dois, finalmente, se mostrou que, quando sua hora chegou, ele estava preparado para brilhar. O elenco de peso, formado por uma montagem não linear, seguido de cores, apontando quem é quem no filme e indicando o que aconteceria nos próximos atos. A luz vermelha quando o mafioso Marsellus Wallace (Ving Rhames) conversa com Butch (Bruce Willis) para ele perder a luta, pois muito dinheiro está envolvido, a luz vermelha, acompanhado de tons homônimos, realça a maldade do diálogo daquele ato. Vários elementos destacam Pulp Fiction.
Se o produto final de Tarantino em Pulp fiction, soa de forma espetacular aos olhos do público, acredite, poderia ter sido um pouquinho melhor se Kurt Cobain tivesse aceitado fazer o papel do traficante Lance, tendo Tarantino pessoalmente convidado Kurt, que negou o papel. em troca, Kurt agradeceu Tarantino no último álbum do Nirvana In Utero.
Caso a parte, Pulp Fiction fora indicado a sete categorias do Oscar, vencendo a de melhor roteiro original.
Mas longe de acabar a festa com essas duas pérolas do cinema, ainda temos um outro filme, que além de ter tido várias indicações, levou sete Oscars para casa.
Robert Zemeckis, depois do estrondoso sucesso da trilogia De Volta para o Futuro, conseguiu alcançar seu maior ápice como realizador nesta obra. Tom Hanks, que ganhara o prêmio de melhor ator no ano anterior com o comovente Philadelphia, abocanhou outra vez a estatueta.
Forrest (Tom Hanks), sentado no banco à espera de um ônibus, começa a contar sua vida para as pessoas que ali estão. De um homem simples e desconhecido até então, o filme começa a desenrolar a partir daí. Forrest, vira herói de guerra, melhor jogador de futebol americano do Alabama, um pescador de camarão milionário e um exímio jogador de tênis de mesa. As pessoas ficam incrédulas com as histórias de Forrest, porém, seu carisma e sua simplicidade acabam por convencer as pessoas.
Fato que Forrest Gump, quase não saiu do papel, pois os produtores, depois de algum tempo de filmagens, resolveram pular fora do projeto. Mas Bob Zemeckis, junto de Tom Hanks estavam dispostos a terminar o filme a qualquer custo, tanto que, os dois abriram mão de uma boa fatia de seus milionários cachês para que o filme pudesse prosseguir.
Ao contrário do que muitos pensam, Forrest Gump está longe de ser um filme ingênuo.
O roteiro alimentou e enriqueceu as `ironias` contidas no filme, devido a o protagonista ter participado direta ou indiretamente de vários momentos históricos da América.
Quando falo em ironias, especificamente quero falar, do ato em que ele entra para o exército, onde Forrest se sai muito bem. se analisarmos o início do filme, Forrest tinha um QI de 75, muito abaixo da média, porém no exército ele era considerado um gênio. Tal fato se dá a uma velha piada onde os americanos dizem, `Ou você vai para a faculdade,ou irá para exército`, ironizando a todos os Jair Heads (termo usado para os fuzileiros americanos, onde são chamado de cabeças de jarro, ou seja, um objeto vazio). Também podemos apontar Forrest como jogador de futebol americano, sendo campeão por um time de seu estado, e de fato, esse time do qual não lembro o nome, realmente ganhou seu único título naquele ano. A mistura da ficção e a realidade, que o filme traz, soa divertido. Seu romance com sua amiga de infância Jenny(Robin Wright), e sua amizade com Bubba (Mykelti Williamson) sensibilizou muitos telespectadores.
Outra curiosidade é quando Forrest vai para Washington ver Jenny, e numa confusão, acaba por subir num palanque de manifestantes contra a guerra que ele acabara de voltar. Repara-se no rapaz incitando a multidão com uma camisa estampada por inteiro a bandeira norte-americana. Esse rapaz, nada mais é que Abbie Hoffman, ativista social e anarquista convicto, co-fundador do Partido Internacional da Juventude. Abbie foi uma figura importante e emblemática na contra cultura beatnik norte americana.
O mais legal é que, no filme Os 7 De Chicago, podemos ver claramente Abbie com a mesma camisa em que estava no filme do Forrest (quem interpretou ele foi Sasha Baron Cohen em Os 7 de Chicago). Também, olhando para o lado técnico, a obra se superou com sua leveza em efeitos especiais, dando uma realidade em cenas como quando Forrest, conhece o presidente Kennedy e também é visto conversando com John Lennon.
Forrest foi o grande vencedor da noite, levando 7 Oscars de 13 indicações.

Poderíamos falar dos outros filmes indicados esse ano, como o ótimo Quatro Casamentos e um Funeral e Quiz Show. Também poderíamos abordar Lendas da Paixão, ganhando com sua exuberante fotografia ou de Martin Landau levando o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo também excelente Ed Wood. Mas nada se compara a essas três obras descritas acima, que por infortúnio do destino, estrearam no mesmo ano e tiveram que concorrer entre si, pois, se fosse em anos diferentes, com certeza todos eles ganharam os principais prêmios da Academia.
Sem mencionar CORAÇÃO VALENTE e FOGO CONTRA FOGO 🔥
ResponderExcluirEsses foram no ano seguinte. Foram lançados em 1995 mas concorreram em 1996.
Excluir👏👏👏👏
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