ENTREVISTA COM O MÚSICO E CINEASTA GURCIUS GEWDNER

1. Comece falando como surgiu seu interesse especificamente em fazer filmes.

 

Gurcius: Foi um caminho natural aliado ao meu amor por música e cultura underground. Nos anos 90, possuído pela efervescente cena cultural que explodia no país, como fanzines, demo tapes e todo tipo de agitação acontecendo á minha volta, aos 14 anos, mesmo sem saber tocar, eu já estava com uma guitarra e um microfone em minhas mãos, deslumbrados com os mais variados estilos musicais, mas especificamente apaixonado pelo espírito político e ofensivo do punk e do metal extremo e as sonoridades dissonantes da música experimental. Quanto mais eu descobria música e ia em shows, mais eu me apaixonava pela liberdade do faça você mesmo e pelas delícias dos encontros coletivos e suas festas. Paralelo a isso vieram os filmes undergrounds com a mesma força política, demente, emocionante e disruptiva.

Passei a devorar filmes com a mesma força que devoro músicas até hoje. Com a ignorância e fogo ardente de um vulcão, montamos um surto coletivo em formato de banda chamado, Os Legais, e logo eu estava com uma câmera na mão, colhendo imagens com a mesma urgência que gravávamos sons, no improviso total e sempre no primeiro take. Fiz meu primeiro filme em 96 e não parei mais, alternando com outros interesses igualmente alucinantes, sentindo o incrível prazer de desafiar os limites de qualquer busca por sentido.

 

 

2. Particularmente, você tem uma estética peculiar tanto em suas artes e seus filmes, o escatológico e maldito. Quais as críticas que você já recebeu com seus trabalhos, digo, tanto da parte positiva quanto negativa?

 

Gurcius: Todos os tipos de críticas. Ambos os tipos me divertem.

Eu sinto o amor e me sinto honrado quando alguém me diz, que algo que eu fiz influenciou suas vidas e seus trabalhos artísticos, ou simplesmente trago alegria de algum jeito para essas pessoas e amigos. A crítica negativa me dá particular prazer, porque tem toda uma intensidade nisso, que muitas vezes e até mais transformadora, gosto de ouvir, com um sentimento quase sádico de quem entrega os filmes com chicotadas. Também gosto de uma certa sensação de cumplicidade, que vi acontecendo com o passar dos anos, onde percebo que as pessoas gostam de conversar comigo, quando não gostaram, elas não tem receio de compartilhar comigo, e sem dúvida, me sinto mais feliz do que as pessoas que perdem tempo ficando magoadas quando alguém diz que não gostou do seu trabalho. Quanta besteira se magoar com isso!

Também não tenho tempo a perder matutando críticas positivas iou negativas, sou ambicioso com minhas missões e quero pular logo pra um próximo passo, fazer mais um filme, mais um disco, mais alguma aventura que seja maior que anterior.Tenho orgulho de muita gente que disse que cresceu ouvindo minhas musicas e vendo os filmes que fiz ou que estou envolvido. Algumas delas são artistas realmente sublimes que me inspiram também. Tudo que faço é seguindo impulsos que sequer sei explicar, mas que nada tem a ver com perseguir ou agradar um determinado público, só amo tudo que faço e agradeço tudo que me ofende, me provoca, me instiga, me traz emoções contraditórias, me faz querer levantar da cadeira e criar algo.

 

 

3. Quando começou, como distribuía seus filmes e como era esse processo numa época em que a internet era para poucos?

 

Gurcius: Seguindo os moldes do mundo das demo tapes: assumindo controle total da maneira que formato meus lançamentos, produzindo tudo eu mesmo e com alguma ajuda das pessoas que confio, seguindo um caminho lento de distribuição e divulgação corpo a corpo que nem sempre é o ideal, mas surpresas boas vão aparecendo no caminho. Era assim em 1997 xerocando encarte de fita, foi assim recentemente fazendo a edição física de Pazucus, um luxuoso digipack duplo, com livreto de 60 páginas, que trabalhei em cada detalhezinho mínimo. Ficou bonito de um jeito que só vendo. Digo com orgulho que é um dos melhores acabamentos que um filme brasileiro já teve em lançamentos físicos. Assim como Baiestorf lançou de 2020 pra cá.

Esse lançamento também teve todo um suporte logístico do Fabiano Soares, que colaborou demais para que o resultado final ficasse mais incrível do que havíamos imaginado no início. Na metade do início dos anos 2000 também iniciei uma parceria de distribuição com a Canibal Filmes, fazendo edições físicas dos filmes em DVD e comercializando eles de mãos em mãos ou pelo correio. Adoro isso. As plataformas do mundo caótico da internet morre de tempos em tempos, já entendi o tanto que tudo é efêmero e descartável, então o segredo é saber usar da melhor maneira que a paciência permite e se reinventar de tempos em tempos. Entender como preservar e divulgar os filmes, como cuidar do próprio registro histórico. Digo isso, mas não significa que entendi como faz. A gente depende de muita gente para conseguir existir nesse mundo, gente como você que tem interesse e me bota pra falar aqui na revista.

 

 

4. Nos conte como foi e ainda é a sua relação com a Canibal Filmes, do Petter Baiestorf?

Gurcius: Amor a primeira vista. Começamos a colaborar e fazermos coisas juntos, no dia em que nos conhecemos em 1998. Eu apresentei pro baixinho o som do The Shoggs, que ele prontamente colocou nos créditos filmes do primeiro filme Zombio, e ele por sua vez, dormiu no lixo do show d minha banda, começou a falar da gente nos fanzines, que fazíamos música insana e irritante, mas que o lixo que atírávamos na cabeça do público era macio, bom pra dormir. Dava até pra comer, quando usávamos lixo orgânico. Depois disso ele foi usando músicas minhas em filmes. Logo em seguida, começo a aparecer como ator nos filmes da Canibal, incluindo ele em eventos e vice e versa, ele me botando junto em todas as furad... , digo, eventos culturais e festivais que estava acontecendo no início dos anos 2000. De 2005 em diante, até 2013, eu ajudei de algum jeito a produzir os filmes da Canibal Filmes produzidos no período.

 

 

5. Você também é pintor, pode-se dizer que usa a mesma estética ou conceito tanto na pintura quanto no cinema?

 

Gurcius: Talvez sim, desenhar faz parte de tudo, dos filmes, dos discos.Se você não tem dinheiro para filmar uma explosão? Desenhe! Se você não conseguir encontrar uma cobra de 12 metros que use cartola? Desenhe! Faltou filmar um trecho importante do teu roteiro,porque no dia deu tudo errado, e não conseguiu reunir as pessoas de novo? Desenhe! Sou obsecado por rotina de trabalho/criação.Gosto de saber como todo mundo faz suas rotinas para lidar com esse desafio que é resolver a vida. Sou apaixonados por artistas prolíficos em constante movimentos como Jesus Franco, Agnes Varda, Mike Patton, Christoph Schlingensief, John Zorn, Paula Gaitan, Gustavo Vinagre, Kim Gordon, Takashi Miike, Lucas Borgia Rossetti, R. Steven Moore, Lymphatic Phlegm, Bertrand Mandico, Gary Wilson, David Lynch, Doris Whisman, Thurston Moore, Maurício Takara, Emily Bonna, Nobuhiko Obayashi, Louis Iancaster, Victor Bello, Lydia Lunch, Carlos Dias, Jello Biafra, Helio Oticica, Rikk Agnew, Pasolini, Ligia Marina, Ian Mackaey, Bruce LaBruce, Vers Shitovlá e muitos outros que me fazem levantar empolgado da cama querendo criar algo incrível pro dia existir bonito. então tento criar uns sistemas de disciplina, sempre mutantes, muitas vezes agoniado porque gostaria de fazer coisas muito pontuais e práticas todos os dias, como criar um desenho, gravar os vocais de uma música nova, TODOS OS DIAS, acordar e ir cumprindo essas missões, mas felizmente não sou um robô e nem quero ser, então essas rotinas dificilmente se cumprem de maneira linear e tem picos de atividades diferentes também. Momento onde gasto meses na montagem de um só filme, outros momentos onde faço desenhos soltos ou fica gravando músicas, mutirão de escrever, e claro, um momento onde deve ser sagrado e constante para todos: ficar sem fazer nada, porque descansar e relaxar é a coisa mais importante que existe. Não fazer nada é tudo, especialmente um mundo escravagista, onde querem que você destruam sua saúde para cumprir prazos impossíveis e sem sentido de trabalho.

 



 

6. Tive o imenso prazer de ver seu curta Bom Dia Carlos, onde me fascinei com a atuação e me diverti com a história. Como foi filmar as cenas, especificamente quando Carlos está passando mal. Aparentemente era um lugar público ou algo do tipo?

 

Gurcius: Bom Dia Carlos é um gêiser fecal e colorido de frutos bons! A filmagem foram duas semanas de dias muito intensos (filmamos Bom Dia Carlos, Pazucus e cenas adicionais de Viatti Arrabbiatti) muito cansativos, mas extremamente divertidos. São filmados em local público sim, no esquema clássico do cinema guerrilha: que é chegar no lugar já de câmera ligada, filma, e já ir embora antes de quem esta em volta sequer entenda o que aconteceu. É um filme onde eu quis destacar e valorizar a paisagem urbana e literalmente fazer um passeio por alguns pontos importantes de Florianópolis, todos esses pontos embalados por vômitos e fezes. Ironicamente com a poluição e epidemia nazi-fascista que domina não soa ilha, mas toda a região sul do Brasil, o filme tem menos de lúdico e mais de realista mesmo. Marcel Mars (Carlos) vagando pelas ruas está embebido de pinóchio964 (Shozin Fukui, 1991), Hitler terceiro Mundo ( Agripino de Paula, 1968), Anthropophagous, 1980, do Joe D`amato, Cat in the brain, 1990, de Fulci e óbio, o Possessed, 1981 de Zulawski. Poucos anos depois, foi emocionante descobrindo filme (até então perdido desde os anos 70), Mangue Mangue do mestre Neville de Almeida, filmado em 1971 e que mostra um dos maiores atores do mundo, Paulo Villaca, vagando pelas ruas perdido e vomitando em dor e desespero, um Carlos nascido 40 anos antes.

 

 

7. Indique alguns filmes para nossos leitores?

 

Gurcius:  Estou possuído por Hong Kong de novo. Devorando os filmes de crime e amor de Johnnie To, a violência extrema e melancólica dos filmes do Herman Yau, endoidando, endoidando com os filmes de terror surrealistas, místicos e escatológicos dos Shaw Brothers como the Boxer’s Omen, Balck magic e Killer Snakes, voltando aos John Woo favoritos da infância para entender que eles são melhores ainda agora. Também revisitando só curtas maravilhosos de Susan Pitt e de Jan Svankmager, passando sufoco com as performances filmadas dos Acionistas de Viena, re-apaixonado pelo cinema extremo (extremo em poesia, extremo em morbidez) do jon Buttgereit, orgulhoso da amiga Emilija Skarnulyte que estão com dois filmes fantasticos em cartaz no Mubi, rolando de alegria com os filmes de acao de baixo orçamento do maravilhoso e subestimado Albert Pyun, vendo muitos filmes de objetos assassinos (como The Lift, Blades, Dial Help) porque um dos meus próximos filmes, (em parceria com Gustavo Viangre), envolve objetos assassinos, apaixonado pelo personagem da Diane Keaton em Looking For Mr. Goodbar, 1978, doido de novo com o cinema Cyberpunk de Shinya Tsukamoto e Key Fugiwara e tambem revisitando obras primas do Neville de Almeida, Ana Carolina e da ROberta Findlay.(delicias agressivas como Tenemente A Womens Torment, ansioso com os boates de que em breve ele vem no Brasil. E claro, não percam meus filmes novos que em breve esta girando, Língua de Fogo, filme de aventura amazônico dirigido por Ze Kielwagen (meu amigo de infância que escreveu comigo, Mamilos em Chamas) e que atuou fazendo um freira cineasta fetichista, que ao lado de sua amigo freira Barbara, que esta em busca de um tesouro messiânico amoroso no coração das praias da amazônia e o inclassificado e emocionante HOT AIR, um filme etnográfico, performático dirigido pela Ligia Marina, quarta parceria comigo, montando e finalizando e e um dos filmes que mais tenho orgulho na vide de ter feito. Também visite meu novo endereço da minha loja virtual e ajude a gente a sair fazendo, gastando um dinheirinho com nossas delicias.

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8. Defina sua vida em uma frase.

 

Gurcius A vida pode ser gostosa, tem aventura, surpresa, frutas, tesão e alegria.

 

Entrevista realizada e publicada pela Revista 666Terror no ano de 2023. 

Por Rodrigo Leonardi

 

 


 

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