ROBERT, O CAÇADOR- Capítulo 12


 

A última caça.

Robert voltou para o trabalho depois de algumas semanas de férias. Já tinha melhorado da paranoia, se confortou pensando que Meg não sabia de nada. Apenas falou aquilo para se aproximar. Talvez sim. Talvez não...

Chegou ao trabalho no horário previsto. Olhou para todos e deu um bom dia coletivo.

Todos responderam com ar de felicidade ao ver Robert de volta.

Passou os olhos por cima das mesas, tinha uma visão de todo o ambiente da porta de entrada. Foi para sua mesa.

Companheiros de trabalho foram até lá e perguntaram como foram as férias.

Robert animado disse que foi revigorante, que passeou pelas ruas frias e que conseguiu ver beleza nas velhas arvores secas. O pessoal se animou. Aparentemente Robert estava bem melhor de quando saíra de férias.

Robert conversou um pouco mais e caiu de cara no trabalho. Era um funcionário exemplar, que nunca tinha recebido reclamações.

Mas não tinha visto o garoto. Ficou um pouco incomodado em não vê-lo.

Não perguntou nada. Pensou que poderia aparecer a qualquer instante.

Onze da manhã e nada do jovem rapaz, ele não se aguentou. Foi até a faxineira e perguntou sobre o rapaz

— Ele não trabalha mais aqui. — disse a senhorinha

— Hum... Faz tempo que ele saiu? — questionou Robert.

— Logo depois que o senhor tirou férias. Inclusive ele tem que levar os papéis para dar a baixa na carteira de trabalho. Ouvi o pessoal falando que não veio buscar até hoje. — fofocou a senhorinha.

— Entendi. — disse Robert

Mais que depressa, e querendo mostrar certa ”eficiência” na sua volta, Robert foi até o gerente e perguntou sobre a baixa do garoto.

— Pois é! Desapareceu. Temos o endereço, mora na periferia da cidade. Disse o gerente.

Robert sorriu levemente e se confortou com a notícia. Tinha uma direção. Bastava saber se ele morava sozinho.

— Você sabia que ele é gay? Parece que brigou com o namorado e entrou numa de autodestruição. — fofocou o gerente

— Não sabia. — Robert.

As coisas realmente estavam conspirando a favor do caçador.

Garoto gay, excluso da sociedade, revoltado com o termino do relacionamento. Era uma presa interessante. Robert se animou, bastava saber onde o garoto morava e fazer uma ronda por lá.

Entrou no sistema do escritório, tinha acesso fácil. Pesquisou:

Rua Lomax. A32.

Apartamento de subsolo...

Lembrou-se de um filme que certa vez assistira.

Pronto. Sabia onde o jovem morava.

— Esta noite eu farei ronda por esses lados. — murmurou.

Ansioso para o termino do dia, Robert trabalha bastante e não se preocupa olhar no relógio.

“Se focar no trabalho, a hora passa que nem percebo”. — pensou.

Fim do expediente.

Robert; que nem viu a hora passar; pega seu casco, dá uma boa tarde a todos e zarpa para casa.

Caminha pensativo até seu destino, olhando para aquelas árvores secas, que ora o aliviavam, ora o desesperavam. Estava frio.

Pensou em ir de carro rondar o local onde o jovem morava. Decidiu que não. Com o carro poderia levantar suspeitas depois que o jovem sumisse.

“Irei de ônibus”. — pensou.

Enfim em casa. Abriu a porta e tirou seu casaco, sentou-se no velho sofá imaginando como faria. Olhou para as paredes da casa. Lembrou-se da parte debaixo, onde estava seu freezer. Desceu até lá.

Em frente ao freezer, agora vazio e com um cheiro insuportável de carne podre, parou e o abriu... . Nada de Roxanne. Um olhar triste paira em seus olhos, lembrando-se do lindo rosto da bela moça. Arrependido por tê-la dispensado, olhava aquele freezer vazio procurando alguma esperança em tê-la novamente, de alguma forma.

— Não consigo mais me lembrar de como era seu rosto... — percebeu.

Sua mente ferrada não assimilava mais. Precisava parar. Certa vez ficou um bom tempo sem caçar, e isso lhe fizera bem. Mas seu metodismo não ia deixar o jovem rapaz passar. Ele iria caça-lo, comê-lo, e guardar para o café da manhã.

Decidido, respirou fundo, fechou o freezer com magoa, como se tivesse abandonando alguém que tanto amara, encostou a mão na boca e mandou um beijo.

Subiu as escadas. Lembrou-se de que tinha que forrar o lugar com plástico, caso o hospede/vítima chegasse naquela noite.

— Não posso fazer aquela sujeira que fiz quando desossei Roxanne. — lembrou.

Pegou o plástico, cortou um pedaço grande e forrou o chão.

Colocou seu casaco. Trancou a casa e partiu para o ponto.

19h55min.

O ônibus passava as 20h00min. Esperando o ônibus Robert ficou pensando como seria.

— Uma caça é diferente da outra. Sempre algo novo. Sempre tem imprevisto. Tenho que agir conforme os instintos me tomam.

O ônibus chegou. Robert subiu. Estava vazio, com meia dúzia de passageiros. Uma senhora, dois rapazes franzinos e mais algumas pessoas.

Robert se acomodou em um banco próximo a janela, sozinho.

Era longe o local. Periferia da cidade. Lugares onde imigrantes se instalavam: bairros de mexicanos, negros, chineses e sul americanos. Toda a “escória”, segundo a visão da sociedade hipócrita.

Seguiu calado imaginando como seria o jovem e seu meio de convívio. Acreditou que por ser gay, seus pais não aceitavam e ele resolveu ir ganhar a vida por si só.

Ou talvez, por ter muitos imigrantes, conseguia sexo mais fácil pagando seus parceiros.

— Será que é drogado? — murmurou para sua mente ferrada.

— Se for eu desisto. — afirmou.

Carne de drogado não é boa. O sangue que banha a carne não a deixa macia. Precisava analisar antes de atacar. Pensou que não ia conseguir àquela noite. Não poderia fazer errado justo na sua última caça. Teria que ser perfeito, para assim fechar com chave de ouro. E depois voltar a ser normal.

Passando por bairros e bairros o cenário ia mudando a cada esquina. Onde antes havia prédios novos e calçadas limpas, agora havia casas pequenas, alguns prédios antigos feito de tijolos a vista, com latões de lixo servindo de fogueira para os mendigos.

Primeira parada: Rua Kelvin. Faltavam cinco quarteirões até a Rua Lomax, segundo o mapinha que Robert conferiu.

Desceram todos, só ficou Robert. O motorista ainda esperou um pouco olhando para ele, para ver se realmente não iria descer ali. Assentiu, engatou a marcha e começou a andar.

Dois quarteirões se passaram e as casas iam parecendo cada vez mais distantes umas das outras, cada vez mais velhas, mais surradas, malcuidadas.

Fim da linha.

Robert pagou o motorista e desceu. Olhou para os lados e sentiu medo. Escuro, postes com lâmpadas quebradas e mendigos dormindo nas calcadas imundas. Começou a andar tranquilamente, fazendo-se passar por alguém que vivia ali. Não queria que as pessoas achassem que era um estranho, assim marcariam seu rosto. Ele caminhava descontraído, tentando ser o mais invisível possível, estava funcionando. Ninguém estranhou Robert.

Ele começou a olhar as numerações das casas:

“29. A29. 30. A30. 31. A31. 32.

A32”.

Era ali. Bem como ele imaginava. Um prédio baixo, de três andares, com a fachada de tijolos antigos. Uma escada de quatro degraus com um corrimão de ferro. Isso. Ferro. Coisa antiga.

O garoto morava no subsolo. Achou o lugar.

Entusiasmado. Pensou em qual seria o próximo passo. Continuou andando passando assim pelo destino e o deixando para trás.

“Não posso ser ansioso. Não posso ser ansioso”. — repetiu a frase em sua mente várias vezes.

Andou uma quadra para frente. Deserto. Resolveu voltar até o ponto de ônibus passando assim novamente em frente à casa do jovem.

Rua deserta firmou o passo como se fosse dali, procurou olhar discretamente o ambiente com a cabeça baixa, parecendo não se importar.

Chegando próximo à casa do jovem, percebeu a luz acesa, diferente da primeira vez. Já tinha mais uma informação. A hora em que o jovem estaria em casa. Confiante, desacelerou o passo e passou bem devagar em frente ao prédio. Viu a luz acesa, e alguém deitado no sofá folheando algo. Uma revista ou coisa assim. Com o rádio ligado bem baixo. Estava sozinho. Era ele. Era sua presa ali, esperando para ser devorado. Acelerou o passo e foi em direção ao ponto.

O ônibus passaria às onze.

Robert percebeu que o jovem chegou a casa por volta das dez e meia. Não acreditava que estivesse trabalhando, pois o período de tempo foi curto entre passagem em frente ao prédio, quando não havia luzes acesas,, e a volta, quando ele já estava deitado. Suas roupas não pareciam de trabalho, e quando chegou deve ter ido direto para o sofá.

“Sozinho”. — pensou.

— Mais algumas espiadas, e pronto. Se for igual a essa, vai ser fácil. — afirmou Robert para sua mente ferrada.

23h00min.

O ônibus chegou. Robert entrou e partiu para casa,

“Amanhã voltarei mais cedo”. — pensou.

CONTINUA.

 

 

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