ROBERT, O CAÇADOR- Capítulo 13 (Penúltimo capítulo)


 

 

 

 

A última caça (Parte 2)

Robert se deitou depois de tomar seus medicamentos. Novamente em delírio foi adormecendo com a música que ecoava do rádio. Dessa vez, música gospel. Apenas seguindo a música com os lábios, foi se apagando, sem pensar em nada concreto. Fragmentos aqui e ali.

Apagou.

Na manhã seguinte o despertador toca as 06h47min. Robert se levanta, ainda sob efeito da fluoxetina, meio aéreo e com a mente vaga. Foi até o banheiro e lavou-se. Suas lembranças começavam a brilhar em sua mente, aos poucos.

Parecia que tinha tomado um porre. Vagarosamente, lembrou-se: “o jovem rapaz.”

Trocou-se rapidamente, sem tomar seu café da manhã, partiu para o trabalho.

Caminhando pelas mesmas calçadas de sempre, com as mesmas arvores secas, pelo intenso frio, Robert manipulava sua estratégia para o jantar.

— Se tudo der certo, vai ser hoje. Ele é sozinho, meu instinto não nega. É um rapaz que ninguém percebe que existe. Presa perfeita. — disse para sua mente ferrada.

Chegando ao trabalho, o efeito dos remédios já havia passado. Robert focou sua atenção no trabalho para que as horas passassem o mais rápido possível.

Trabalhava como nunca. Funcionário exemplar, carismático e adorado. Robert passeava os olhos pelo ambiente de trabalho enquanto procurava concentrar-se na tela do computador à sua frente: a senhorinha varrendo; o gerente no telefone, de pé. Sempre irritado ao telefone... Uma mulher gravida comendo bolachas, com a mesa cheia de migalhas e restos de comida. De volta ao computador.

Hora do lanche.

Comeu um hot dog. Cochilou.

De volta ao trabalho.

Focado.

Calmo e focado.

Entre olhares observadores, a hora passava rápido. Seis da tarde.

“Chegou a hora”. — pensou.

Caminhou até sua casa, lentamente. Lembrou-se de que há tempos não ia ao bar do Joe.

— Se tudo der certo hoje, vou comemorar lá! — murmurou.

Chegou a casa, abriu a porta. Desceu até o porão, conferiu o plástico no chão. O freezer estava ligado. Pegou a haste de metal pontiaguda, enfiou na lateral da calça, por dentro. Andou para lá e para cá com a haste na calça. Estava confortável. Nem parecia que ela estava lá.

Hora do show.

Saiu rápido para pegar o ônibus das dezenove e trinta. Chegou alguns minutos antes. Ônibus no ponto.

Embarcou. Desta vez tinha mais passageiros, com apenas pouquíssimos assentos livres. Sentou-se no primeiro que viu, quase no mesmo lugar da primeira vez.

Com uma perna dobrada, outra esticada por causa da haste, Robert disfarçava:

 “Acidente de trabalho”. — pensou na desculpa, caso precisasse.

— Mas trabalho onde? — questionou em voz baixa para si mesmo.

 “No prédio do centro, aquele bem grande. Sou carpinteiro, me feri com a serra de bancada”. — desculpa elaborada.

As horas se passando; o caminho percorrido; o cenário mudando.

Enfim, chegou.

Desceu do ônibus e caminhou de cabeça baixa. Ninguém perguntara nada. Caminhou firmemente até seu destino. Duas quadras o separavam de seu jantar.

Chegando perto da casa do jovem, Robert avistou de longe as luzes apagadas. Se aproximando cada vez mais, tudo permanecia escuro. Passou pelo prédio lentamente de cabeça baixa, só movendo os olhos discretamente para o local. Nada.

Era um pouco cedo, Robert avistou um bar aberto. Onde tinha uma varanda que dava para sentar ao lado de fora. Pensou que lá seria o lugar perfeito para aguardar sua presa.

Podia ser um erro, pois ia ter que socializar com alguém. Mas Robert não era dali. Não deveria se preocupar tanto. . Se tudo desse errado tinha um suspeito, gordo de meia idade. Padrão de homem normal.

Aproximou-se do bar. Resolveu sentar:

— Uma cerveja, por favor. — disse Robert para a atendente que estava terminando de varrer a calçada. .

— Sim senhor.

Robert se sentou, sem olhar muito para as pessoas do bar. Cabeça baixa, com os olhos fixos nas mãos juntas em cima da mesa.

Esperou tomando a cerveja devagar. Imaginou como seria quando fizesse sua presa de refém, como iria se comportar ante a situação? . Acalmou-se. Pensou em algumas técnicas.

“Como posso abordá-lo? Espero o garoto chegar, bato na porta, falo que sou homossexual e quero uma transa, que estou disposto a pagar” — pensou, imediatamente descartou o método.

“Posso usar a tática de Meg”. — refletiu. .

— Isso! Posso usar essa tática. — afirmou.

Pronto, tudo resolvido. Robert se assegurou de que a tática usada por Meg, com o rapaz, funcionaria. Era arriscado, por outro lado podia ser perfeito.

Horas se passaram:

 — Outra cerveja, por favor. —. já estava na terceira.

Poucas pessoas no bar. Robert agora se assegurava de que não estava sendo o centro de atenções. Olhava de cabeça baixa, passando os olhos para lá e para cá. Sabia fazer isso como ninguém.

Parecia tranquilo.

Robert estava para desistir da presa. Estava se conformando em deixar para outro dia.

Se acalmando e pensando que poderia estar forçando a situação.

Decidiu ir embora. Deixar para outro dia.

Pagou a cerveja, disse boa noite e partiu para o ponto.

O bar era perto do prédio. Se forçasse a visão e desviasse de certos objetos, dava para ver o apartamento da mesa do bar onde estava.

Caminhando focado, Robert se aproximava do prédio. Cada vez mais perto, a luz se ascendeu no subsolo. Robert fixou o olhar e aquela sensação de caça, aquela aceleração boa e natural em seu peito cresceu, dando assim a confiança e a esperança necessárias para que o ato fosse cometido naquela noite.

Quase em frente ao prédio desacelera o passo. Caminha lentamente e para. Robert olha pela janela. No mesmo instante o jovem se vira e vê Robert. Da um sorriso. Robert acena com a mão aberta. O jovem sorri. Robert leva a mão até a altura da boca fazendo um sinal de que queria falar com o garoto. O jovem, com um olhar safado, balança a cabeça em sinal positivo.

Robert sorri.

O jovem vai até a porta, destranca e a abre.

— O que o senhor deseja? — questionou o jovem, com um ar safado.

— Eu sei tudo sobre você. — disse Robert ao garoto.

— Qualquer um que tenha cem pratas descobre tudo sobre mim. — riu o garoto.

Robert pensou por uns segundos que seria mais fácil que imaginara.

— Posso entrar? — perguntou.

— Posso saber seu nome. — disse o jovem.

— Steve. — mentiu.

— Agora pode entrar. — assentiu.

Robert entrou e sentou-se no sofá. Havia apenas um cômodo no apartamento. Cozinha, quarto e sala, separados apenas pelos moveis.

— Como sabe tudo sobre mim? — questionou o jovem.

Robert olhou nos olhos do rapaz, estava confiante. A presa não escaparia mais. Resolveu mesclar alguma verdade com mentiras.

— Trabalho no escritório em que você trabalhou há pouco tempo.

— Serio? Não me lembro do senhor lá. — respondeu.

— Sim. Trabalho. Quando você entrou trabalhei cerca de dois dias, daí eu tirei minhas férias. Coisas acumuladas... — disse Robert, olhando para baixo, com um ar sério.

— Realmente não lembro. — disse o jovem.

— Vamos ao que interessa. O senhor veio aqui para que? Já imagino. Sexo né? — concluiu desinibido.

Robert olhou para ele com olhos de caçador, sorriu. Afirmou maneando a cabeça.

— Você mora sozinho? — perguntou para o jovem.

— Sou sozinho. Minha família não me aceita. Eles são do interior. Única pessoa que conheço aqui é um ex-namorado que não quer nada comigo, e agora o senhor. — disse o jovem entristecido.

— Entendo. Deve ser difícil né?

— Já me acostumei. Vivo sem que eles percebam a minha existência, e eles fazem o mesmo. Fingem que não existo. , — afirmou o jovem.

Robert, por um instante, teve certeza de que estava cada vez mais fácil.

— Sim. Estou interessado. Quanto cobraria? — Robert.

— Cinquenta pratas. — respondeu o rapaz.

Robert o olhou com um olho meio fechado e outro aberto.

— Ok. Quero agora.

— Vou me trocar. — disse o jovem.

Enquanto o jovem entrou no banheiro, Robert sentiu a aceleração tomar conta de seu corpo. Sentiu que seria a hora. Estava com a mesma sensação de todas as vezes que matou.

De repente, pensou.

“Pobre alma. Sem família, sem ninguém notar, sem nada. Vivendo em um limbo”.

Robert entristeceu-se.

Começou a sentir pena do jovem, se prostituindo para ter prazer com algo que não era aceito pela sociedade. Pensou que esse jovem, era um sem futuro que acabaria pendurado numa corda por aí.

“Mais um suicídio quase confirmado”. — pensou.

Robert tremeu. Sentiu seus pensamentos transformando-se e a tristeza tomou conta da atmosfera. Tudo pareceu descolorir-se... Sentiu pena.

Respirou fundo. Pensou que seria hora de parar sem aquela presa. Estava tão triste com aquela situação que começou a chorar. Chorar alto.

Enquanto as lágrimas de desespero corriam por sua face, o jovem abriu a porta do banheiro, se escondendo e olhando para Robert, assustado.

Robert viu o jovem. Respirou fundo, limpou os olhos e fez um gesto com a mão, chamando o jovem.

O rapaz saiu do banheiro, só de toalha. Com uma feição de incógnita.

— Não quero ter relações com você. Nunca quis, só queria te conhecer. — disse Robert.

O jovem ficou parado sem saber o que falar.

— Podemos ser amigos? Posso vir te visitar outras vezes? Apenas quero um amigo. — Robert mal conseguindo terminar as frases e caindo em choro.

— S- sim. Podemos sim. — disse o garoto reconfortando-o.

— Precisamos de amigos. Precisamos ser notados. — disse Robert limpando os olhos mais uma vez.

Robert se levantou. Arrancou do bolso cem pratas e jogou sobre o sofá.

 Recomposto, Robert disse:

— Tome esse dinheiro, compre algo decente para comer garoto.

Robert saiu pela porta em direção ao ponto de ônibus.

 

CONTINUA.


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