AS ÚLTIMAS HORAS- Excessos

 

 


 

 

EXCESSOS

 

 

Minha última noite não foi boa. Foi um show estranho, estava muito bêbado e fiz como Dionísio quis... me afundei nos excessos de minha mente.

Acordei mal, ressaca e uma vontade imensa de parar com tudo. Preciso substituir as drogas, bebidas e o fumo por algo. Algo que me fortaleça.

Todo o sucesso que minha banda tem, deve-se a mim. Fui o único que não os abandonei para uma fadada carreira solo.

``Um por todos, todos por um``

Lembro do início de carreira onde perambulava pelas noites de Los Angeles, tocando guitarra em bandas de garagem, recitando minhas poesias para sub grupos urbanos. Regado a álcool barato e drogas... também baratas.

Lembro também que fui democrático, apesar dos holofotes estarem sempre voltados a mim, o guitarrista de minha banda, um pentelho mais jovem que eu, escrevia, e eu aceitava suas escritas.

``Um por todos, todos por um``

Agora que tudo veio à tona, nego minha embriaguez, alegando ser sóbrio... porem os mais próximos sabem que não é verdade. Meu pé no alcoolismo só foi segredo para a mídia. Apenas para ela.

Talvez tenha minhas paixões ocultas, onde vejo alucinações que me perseguem... talvez me confortem. Aquele velho índio talvez existiu de verdade... na minha mente, não tenho dúvida alguma. Sempre me acompanhou em meus momentos mais distantes, quando os excessos, que sempre fizeram parte de minha vida, e que me mataria daqui a pouco, fizeram.

Do mesmo jeito que ergui para o estrelato minha banda, que nunca os abandonei... eu afundei ela. Não vamos participar do maior evento já realizado do mundo. O FBI está na minha cola, fazendo perguntas para todos em minha volta, me vigiando com carros de vidros escuros na rua de minha casa.

``Vamos enfrentar um processo`` disse meu advogado, que na verdade nunca tinha visto na vida. Alguém que a gravadora mandou por puro interesse... dela mesma.

Entrei em colapso, chorei.

Não estava mais dando certos esses excessos, precisava substituir eles.

Não suportaria na verdade viver sem, porém tinha que mudar drasticamente. A América não dava mais, se ficasse aqui continuaria a aproveitar de tudo que ela tem a oferecer.

Talvez escreva outro livro. Meu primeiro livro foi ofuscado justamente pela minha fama na música. Poucas copias tiradas. Ninguém se interessou.

Talvez seja bonito o suficiente para não precisar de inteligência, elas nunca ligaram para isso. Queria apenas o sexo, e contar vantagens sobre o fato consumado.

Talvez devesse de verdade, me esconder em outros cantos para tomar um ``ar fresco``, algo com outros costumes, outras vibrações.

Tenho um julgamento a enfrentar, posso ser preso... na verdade não. Sou um astro do rock, não somos presos. Somos apenas condenados a pagar trocados e saímos tranquilo.

Para a mídia da época, estava sóbrio, para pessoas próximas... estava no fim. Fui julgado por obscenidade e incitar um tumulto generalizado.

Condenado a seis meses de trabalho forçado, para não pagar essa pena, deram alguns trocados para o governo e me exilaram em Paris...

Ótimo!!!

Viajo para Paris com minha esposa, ela está disposta a me ajudar. Apesar que ela curte drogas... eu curto mais álcool.

Resolvo que vou escrever um livro... talvez gravar um filme... tenho amigos em Paris. Talvez, tivesse amigos em qualquer lugar do mundo, mas Paris na época era o berço de artistas reclusos problemáticos, assim como eu.

Estava em casa.

Resolvo não usar drogas. Apenas algumas cervejas, cigarros.

Comida boa, gastronomia do velho mundo é demais.

Substituo uma droga por outra... Ácidos, heroína, por álcool leve e comidas...

Estava gordo em meus últimos dias, tinha apenas 27 anos parecendo alguém de cinquenta, talvez quase sessenta.

Me irritava muito fácil quando alguém me conhecia em algum café. Queria sumir, apenas escrever.

Sempre irritado, não escrevia nada. Apenas comia, bebia e fumava.

No meu último dia de vida, resolvi usar heroína, no qual não era muito fã. Todos sabem que meu negócio era álcool. Entrei no banheiro do bar que ia todos os dias... injetei a droga que consegui facilmente. Era famosos e todos queria ser meus amigos.

Alguns minutos depois eu morri. Demoraram cerca de duas horas para perceberem que eu não saia mais do banheiro.

Arrombaram a porta, me encontraram já sem vida.

O dono do bar se apavora. Disse algo como não queria esse tipo de problema pra ele. Algo como alguém famoso morrer no bar dele.

Meus amigos me pegam... me colocam no carro, um deles tenta me reanimar, sem saber como fazer isso.

Me levam até meu apartamento, minha esposa está dormindo. Drogada... ela era viciada de verdade em heroína, não eu. Ela gostava muito mais, usava muito mais... até tentei botar fogo nela certa vez por ódio disso.

Me colocam na banheira, enchem de água quente.

Meu corpo fica em temperatura normal, devido a água...

Minha esposa acorda de ressaca, me chama pra sair... não levanto.

Ela percebe que parti.

Percebe já no primeiro instante. Não questiona, não chora... apenas senta ao lado e fica me observando... sabendo que nunca mais me verá sorrir, chorar, cantar....

Fui embora...

 

 


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