AS ÚLTIMAS HORAS- Deve ser difícil ser Rei

 


 

 

 

O fardo que eu carregava era pesado demais. O fardo de Rei pode soar grande para os outros, causando assim admiração e inveja por muitos. No meu caso, adorava ser o Rei. Gostava do assédio das fãs e de toda o glamour que tinha em vida. Sentado aqui, agora. faltando pouco tempo para me despedir, penso que podia ter sido diferente.

Sempre me preocupei com todos em minha volta. Como dinheiro não era problema para alguém que tinha o título de Rei, não hesitava em ajudar amigos e familiares. Se soubesse que precisava de algo... ajudava.

Era um homem de negócios, acima de tudo. Gostava de cuidar da parte burocrática, ao menos saber quase tudo o que se passava. Meu contrato exigia dar metade dos meus lucros aí meu empresário. Talvez por isso ele me fazia trabalhar tanto. Às vezes me peguei pensando o quanto custava todos os serviçais que trabalhavam para mim, até medico, e enfermeiras particulares eu tinha.

Acho que no fim de minha vida não tinha condições de todo esse luxo. Seguranças, empregados, médicos, enfermeiras e alguns amigos que viviam na minha casa.

Certo que meu empresário financiava tudo isso, mesmo em decadência, ainda era uma mina de ouro para ele. Mesmo acima do peso, desregrado, bebendo muito, fumando muito eu ainda era o Rei.

Acredito que me viciei de verdade em barbitúricos quando minha mãe faleceu. Acredito que me afundei mais ainda nele, quando minha querida esposa me deixou.

Com quarenta e dois anos, me sentia um velho de setenta. Agora que sei o meu final, poderia ter aguentado mais, levado a vida menos a sério, tirado umas férias, até me aposentado e viver das glorias dos dias felizes.

Mas não podia, muita gente dependia de mim. Minha equipe era muito grande, todos tinham famílias para cuidar, dependiam daquele trabalho, onde eu era o principal protagonista, o centro de onde saia seus salários. Sem mim eles estariam desempregados, falidos.

Lembro da minha terrível dor de dente, onde não pude operar, pois ia começar uma turnê no dia seguinte. Lembro das incontáveis doses e mais doses de remédios para conter a dor. Também me lembro do meu intestino preso, talvez isso se deva a minha pobre dieta de comidas sem proteínas e gordurosas.

Precisava estar em forma no dia seguinte, resolvi jogar tênis com um amigo, na madrugada. Joguei, suei, me senti com um bem estar incrível.

Tomei meu banho e me deitei. Sem sono, me rendo há mais algumas doses de medicamentos.

Ainda sem sono, peço para meu médico me trazer mais. Ele traz.

É difícil dizer não para o Rei. Quase impossível. Todos queriam me agradar. Às vezes, as pessoas vivam a minha volta e não percebiam o quanto tóxico eu estava.

Não consigo dormir ainda. Vou ao banheiro. Não consigo defecar. Essa prisão de ventre está me acompanhando há muito tempo, vi isso em minha autopsia, enquanto estava em vida, não percebi o tempo em que fiquei sem defecar... quase seis dias.

Sinto um mal-estar e caio no banheiro com as calças no joelho, não levanto mais... horas depois minha mulher me encontra, chama os paramédicos, daí vocês já sabem... as notícias se espalharam sobre o que tinha acontecido com o Rei.

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