AS ÚLTIMAS HORAS- Excesso de Amor Próprio


 

 

Com certeza eu também fui um talento desperdiçado, e morri pela minha egocentricidade. Minha retórica em querer provar minha masculinidade, perante há falta de um testículo, me tornou um homem obcecado por atividades físicas, no qual me resultou a várias brigas e vários danos em meu corpo.

Analisando, não levava desaforo de ninguém. Provava para todos que eu era o melhor em uma briga. Exceto uma vez, em que apanhei de um dublê.

Isso me deixou péssimo. Acho que nunca me recuperei dessa ocasião. Do mais, era um homem atlético, o mundo me via assim. Um grande artista marcial, talvez o melhor que já existiu. Passava a imagem de um homem seguro, livre de problemas físicos e mentais. Não podia ter mentido tanto, devia ter procurado ajuda o mais rápido possível.

Não era de abusar de nada, drogas, medicamentos. Apenas quando realmente precisava. Uma curiosidade sobre mim que talvez ninguém saiba: sou usuário de maconha. Gosto de fumar para relaxar. No meu país de origem, não o de meu nascimento, mas o da minha etnia era proibido o uso. Tinha que esconder ao máximo, deixando assim pouquíssimas pessoas saberem.

Mas me confortava. Adorava, minha esposa nunca me repreendeu por tal uso. Ela me achava o máximo.

Sou um homem que ganhei notoriedade no cinema, não apenas por ser um excelente artista marcial, mas também por ter uma visão cinematográfica interessante.

Sempre opinava em meus filmes, os diretores aceitavam. Minha carreira foi curta.

Morri herói.

Apenas um seriado de expressão, um filme. Voltou para meu país de origem para fazer alguns filmes de baixo orçamento, foi um sucesso.

Voltei para a América com um contrato para um filme grande.

Não podia ficar em meu país de origem, pois lá, a máfia local tinha grandes influencias, inclusive no cinema, retratando-as com maestria e tom heroico. Eles não gostavam de mim.

Lembro que dei uma surra no filho de um chefão local também. Com certeza não era uma boa atitude ficar por lá.

Certo que, não corria de nenhuma briga, meus amigos ficavam preocupados. Posso ser o cara mais perigoso do mundo, porém, já levei altos tombos, socos, pontapés, igual o dia em que apanhei daquele dublê.

Esse episódio até virou cena de filme quase cinquenta anos depois do ocorrido.

Mas voltando as minhas lesões. Tinha muitas. Hérnia de disco, e provavelmente alguma sequela em meu cérebro.

Não me lembro bem. Apenas me lembro que quando morri, veio à tona meu romance com uma outra mulher, pois morri na casa dela.

Acredito que minha esposa deve ter ficado decepcionada comigo, mesmo eu dentro de um caixão.

Se perguntarem como morri, não saberei responder. Acredito que fui assassinado, mesmo que o laudo da autopsia não diga isso.

Me lembro de dormir, talvez fui envenenado.

Talvez.

 

 

 

 

 

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