Ok, vamos lá.
Vendo todos os defuntos aqui contando suas experiencias pré morte, resolvi também analisar como foi a minha. Certo que, única diferença de todas as outras mortes citadas nesse livro, a minha já era de se esperar. Acredito que quando parti dessa para melhor, as pessoas... algumas delas... talvez a maioria, deve ter pensado que fui tarde.
Eu era complicado.
Talvez a palavra insatisfeito soa melhor para meu modo de pensar. Não me dava bem com a fama. A fama me trouxe dinheiro e uma vida luxuosa. Talvez não precisasse de tanto dinheiro assim, de tanto assédio. Mas isso só acontece de vez em quando. Quando se é uma pessoa que praticamente é rotulado em criar um estilo tanto musical quanto estético.
Um fardo pesado.
Um pouco patético talvez. A legião de fãs que me cercavam procurava andar rasgado igual a mim. Uma estética punk com cabelos compridos, flanelas e all stars. Analisando bem, talvez esse não seja um motivo de ter ódio. Pois meus fãs sempre foram fieis. Inventamos um estilo, desbancamos grandes bandas fazendo um som cru, sem muitos arranjos. Uma atitude bem punk.
Mas o que me levou a morrer?
Talvez comece pela minha linda esposa infiel... talvez.
Posso colocar a culpa nela, pelas traições, por isso me afundei em drogas, remédios?
Lógico que posso. Na verdade, se eu colocasse essa culpa, talvez teria me tratado, me curado e assim, vivo até hoje.
Fato que, a culpa é total minha, olhando agora e vendo minha cabeça despedaçada no porão de minha casa, poderia ter aguentado um pouquinho mais, ver minha linda filha de um casamento de mentira crescer e ser feliz.
Ser um pai de verdade.
Talvez... esses muitos talvez, me persegue, pois talvez eu poderia não ter puxado o gatilho.
Mas já foi. Morri herói... símbolo de uma geração que ficou órfã com minha partida.
Mas minhas últimas horas não foi lá cômica... foi desconexa... e impulsiva.
Doente, fugi da clínica que me colocaram.
Fiquei desaparecido por alguns dias e sabe o que é mais interessante?
Ninguém me procurou em minha própria casa.
Estava lá.
Usando minhas drogas, escrevendo uma carta de despedida e criando a coragem necessária para puxar o gatilho de minha espingarda.
Tanto que, depois de injetar heroína, escrever minha carta com muita tristeza, enfiei a arma na boca e me explodi.
Demoraram muito tempo para me encontrar. Fiquei por ali, parecia uma eternidade, mas estava sóbrio... ao lado de meu corpo.
Me arrependi?
Talvez.

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