NOSSO AMOR NÃO É DIGNO DE HOMENS- Capítulo 1


 

 

 

- As cortinas se abrirão em três minutos- disse o contra regras.

Estava exausto por ter que fazer pela milésima vez o mesmo programa, com os mesmos atores. Era um programa no teatro Central de Sirap. As pessoas amavam essa arte.

Eu sempre esperava anoitecer para chegar, pois o dia poderia me matar, se era verdade ou não que nós não podemos sair de dia eu não sei. Porém não iria me arriscar. O medo dessa lenda se tornou tão forte que só ouvíamos rumores que um ou outro morreu tentando sair de dia.

Bartolomeu, um de nós, viveu em meados do século 19 em um vilarejo no norte da Franca. Certa vez se embriagou e dormiu em um beco, quando acordou, o sol estava pegando em seu pé. Ele acordou gritando, seu pé virou pó. Lenda ou não, não me arriscaria.

Enfim chegou a hora do espetáculo. Interpretava um vampiro, numa comedia tragicômica digna de Shakespeare. Então a ironia, interpretava o que eu pudera ser de verdade. Apenas o diretor Willian, um inglês erradicado em Sirap sabia da minha verdade. Ele me pagava com sangue.

Uma coisa sobre nós é verdade. O sangue de jovens é mais apetitoso, doce como um belo vinho suave. Ele se prontificava em arrumar para mim toda a noite um belo cálice desse sangue. Não questionava de onde vinha, pois meu coração era mole, não conseguia matar. Também não pudera deixar alguém saber disso, muito menos Willian, sobre minha fraqueza. Talvez ele quisesse se aproveitar dela.

A profissão de ator era sufocante para mim. Eu tinha que morder a protagonista, porém, não podia morder de verdade. Com uma bolsa de corante escondida em minha mão, estourava ela na hora em que supostamente abocanhava seu pescoço, fazendo-se assim que parecesse sangue. Me segurava, pois mesmo com o coração mole e o medo, aquilo me atraia, pois era da minha natureza adorar pescoços joviais.

A peça se encerra mais uma vez. Contente dessa vez, por ter feito a milésima, William nos chamam para uma celebração na taberna Le Procope, apreciar a bela vista num jantar.

Sentei-me ao lado da protagonista. Alicia. Era uma jovem linda, de longos cabelos castanhos, que ao reflexo do sol ficavam avermelhados.

Conversamos por alguns minutos até que chega um grande cálice de ``vinho`` para mim. Bebo de um gole farto. Por gentileza, ofereço para Alicia. Ela responde que sim.

Mesmo sabendo que isso poderia ser um erro, ajo de forma normal e lhe passo o cálice. Estava confiante aquela noite, estava feliz, algo não muito natural entre a minha espécie.

Ela bebe, um gole farto também. Não faz cara feia, muito pelo contrário. Faz uma cara de satisfação. Me diz que está delicioso. Pergunta se era sangue jovem.

Me assusto. Arregalo os olhos sem saber o que falar. Ela pega em minha mão. Me pergunta de novo se era sangue de alguma jovem.

Fico sem responder. Intacto. Olho para o canto da longa mesa, no outro lado e Willian está me olhando com um sorriso irônico. Pensara eu que ele tinha falado sobre mim. Pensara várias coisas na verdade até que Alicia me diz:

- Eu também sou uma de você. Você é um dos meus. Somos da mesma espécie.

- Desde quando você sabe de mim?

-Desde o primeiro dia, quando vi seu olhar esverdeado com um singelo toque avermelhado. Quando percebi seu rosto pálido e angelical. Somos os anjos da noite. Somos lindos e inconfundíveis. – disse Alicia quase que poetizando suas falas.

Contracenei com uma da minha espécie por mil ensaios, e só agora no ultimo a conheci de verdade.

Desde então, amei Alicia todos os dias.

 

 

Cap. 1. Alicia.

 

 

As noites com Alicia eram envolventes. Depois que nos conhecemos de verdade, viramos amantes, cumplices e parceiros em tudo. Ela já era mais vivida do que eu, não de idade, era mais experiente quando se tratava de caçar suas presas. Nos apaixonávamos todas as noites, com ela me trazendo sangue jovem para me alimentar. Não questionava o fato de eu não ter a coragem necessária para poder me alimentar sozinho.

Vivíamos em bares noturnos nos divertindo, apenas eu e ela. Consegui chegar à conclusão que estava aceitando de verdade quem eu era. Antes, passava as noites pensando em todas as histórias que contavam sobre nós. Histórias ruins, macabras lembrando uma peça de horror ou contos de Alan Poe.

Na verdade, não somos maus. Somos românticos, talvez o que viria a ser o romantismo mórbido, a paixão pelo triste. Há muita coisa bela no triste, muita beleza nos dias escuros e chuvosos. Muita paz.

Há muito romantismo também. Consegui entender isso com Alicia.

Ficávamos apaixonados pelos dias nublados, dias esses que arriscávamos para sair à noite. Talvez por isso, não se ouve falar de vampiros em países de clima tropical onde os dias são ensolarados e cheios de ``vida``. Nos adaptamos em lugares frios, nublados e noturnos. CONTINUA...

 

 

Comentários

  1. Bom dia, leitura viciante e introspectiva que nos leva em uma viagem ...
    Excelente!

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